© Reuters Por noticiasaominuto.com 01/10/2026
Christa Gail Pike, a única mulher no corredor da morte no estado norte-americano do Tennessee, sobreviveu às duas doses letais de pentobarbital administradas durante a execução, na quarta-feira. Do crime à falha sem precedentes, eis o que se sabe sobre o caso.
O crime e a pena de morte
Pike, atualmente com 50 anos, foi condenada à pena de morte pelo homicídio de Colleen Slemmer, uma colega de 19 anos do programa de formação profissional Job Corps, em Knoxville, em 1995.
Slemmer foi esfaqueada e espancada até à morte por Pike e o namorado, colega de ambas na mesma instituição. O caso tornou-se um dos mais mediáticos da altura nos Estados Unidos, sobretudo devido ao facto de o casal ter gravado um pentagrama - um símbolo associado a Satanás - no corpo da vítima.
Segundo a acusação, Pike receava que Slemmer estaria a tentar roubar-lhe o namorado e, por isso, atraiu-a para uma zona arborizada a 12 de janeiro de 1995, onde a esfaqueou com um x-ato e a agrediu com um pedaço de asfalto. Tadaryl Shipp, o namorado de Pike, admitiu ter sido responsável por gravar o pentagrama.
A mulher foi condenada à pena de morte em março de 1996, enquanto o namorado recebeu uma pena de prisão perpétua, com possibilidade de liberdade condicional, por ser menor de idade na altura em que ocorreu o crime.
O pedido de clemência: "Era uma jovem com uma doença mental"
Christa Pike pediu clemência a um tribunal do Tennessee, alegando que queria apenas lutar com Slemmer, mas acabou por matá-la num ataque frenético que não conseguiu "travar".
Após o homicídio, Pike foi diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de stress pós-traumático.
"Eu era uma jovem de 18 anos com uma doença mental. Foram necessários muitos anos até sequer compreender a gravidade do que tinha feito", afirmou num comunicado.
Pike não nega ter participado no homicídio, mas os seus defensores argumentam que devem ser considerados a idade que tinha na altura, os problemas de saúde mental e um historial de graves abusos sexuais, incluindo violações desde a infância.
Justiça chegou a suspender execução uma hora antes
Na quarta-feira, cerca de uma hora antes de acontecer, a execução de Christa Pike foi suspensa por um tribunal de recurso dos Estados Unidos, que pretendia analisar se as alegações de Pike sobre abusos sexuais e violações sofridos durante a infância foram devidamente consideradas quando foi condenada à pena de morte. No entanto, a ordem de suspensão foi levantada pelo Supremo Tribunal.
Antes, na terça-feira, o defensor público federal Stephen Ferrell tinha alegado que a condenação de Pike constituía uma exceção, uma vez que outros jovens de 18 anos condenados à morte no Tennessee viram posteriormente as penas anuladas.
As duas injeções letais e a "falha sem precedentes"
Na quarta-feira, as autoridades do Tennessee não conseguiram executar Christa Pike depois de administrarem duas doses de pentobarbital, um fármaco letal.
Pike permaneceu acordada, falou e cantou com o guia espiritual, após o início da administração do fármaco e, após a primeira dose, continuou a mover-se e a respirar de forma audível.
Segundo testemunhas, Pike estava viva e a fazer barulhos mesmo depois da segunda tentativa de injeção letal, tendo sido transportada de ambulância da prisão. Os seus advogados indicaram que estava a ser tratada num hospital, mas não sabem o seu estado de saúde.
O Departamento de Correções do Tennessee afirmou, num comunicado, que "seguiu todas as etapas do protocolo legal e estabelecido para execuções, aprovado pelo Gabinete do Procurador-Geral".
Este protocolo determina que um segundo conjunto de seringas com medicamentos seja administrado "se o recluso não estiver morto" após o primeiro conjunto. O protocolo não especifica o que deve acontecer se a pessoa continuar viva depois da segunda dose.
Para Robin M. Maher, diretora-executiva do Centro de Informação sobre a Pena de Morte, o que aconteceu com Pike é "singular e sem precedentes".
Segundo explicou, sete outras pessoas sobreviveram a problemas médicos provocados pela incapacidade das equipas de execução de aceder a uma veia para administrar os medicamentos da injeção letal, mas ninguém tinha permanecido vivo depois de receber os fármacos utilizados nessas execuções.
Os advogados de Pike apresentaram, na noite de quarta-feira, um pedido de emergência ao Supremo Tribunal do Tennessee para interromper e suspender imediatamente a execução, alegando que estava a sofrer uma "agonia desnecessária" e que o procedimento violava o seu direito a ser executada sem ser submetida a punições cruéis e incomuns.
A suspensão de execuções no estado do Tennessee
O governador do estado do Tennessee (EUA), Bill Lee, anunciou uma suspensão temporária das execuções previstas para 2026, depois de Christa Pike ter sobrevivido.
"Cumprir as sentenças impostas legalmente está entre as responsabilidades mais importantes do Estado, e o povo do Tennessee espera que isso seja feito não só de forma legal e constitucional, mas também eficaz", referiu Lee num comunicado divulgado pelos meios de comunicação locais.
O governador solicitou uma investigação "exaustiva" sobre a execução falhada de Pike e suspendeu as restantes execuções que estavam previstas para este ano no estado.
De acordo com o Centro de Informação sobre a Pena de Morte, estava prevista no Tennessee a execução de Gary Wayne Sutton no próximo dia 3 de dezembro.

Sem comentários:
Enviar um comentário