Por Gaio Martins Batista Gomes 09/10/2026
Mas, reconciliação entre quem e quem?
Quais são as causas do conflito que pretendemos reconciliar?
Quem é a vítima e quem é o agressor?
Quais são as responsabilidades de cada uma?
E, sobretudo, estamos perante um problema verdadeiramente nacional ou perante conflitos entre grupos políticos e interesses particulares que foram transformados em problemas do Estado?
O povo guineense não está em guerra.
Vivemos juntos, casamo-nos entre etnias, falamos a mesma língua, diferentes etnias vivem em mesmos bairros, partilhamos mercados, escolas, dificuldades e esperanças.
O que o guineense realmente precisa é de quem vai resolver o problema da falta de hospitais, de estradas, de emprego, de energia, de água, de salários dignos e de instituições que funcionem.
A crise política das elites não pode ser confundida com uma guerra nacional e com ameaças de sanções
Há conflitos entre dirigentes. Há disputas dentro dos partidos. Há lutas pelo controlo das instituições. Há ambições pessoais. Há problemas de liderança, de gestão partidária, de confiança e, muitas vezes, de carácter.
Mas não podemos transformar automaticamente tudo isso num problema de reconciliação nacional.
Se há um problema em concreto, devemos identificá-lo sem rodeios.
Se há responsabilidades, devemos apurá-las, sem esquivar.
Se há crimes, devem ser tratados pelas instituições competentes de forma justa.
Se há conflitos partidários, devem ser resolvidos dentro das regras democráticas.
Chamemos as coisas pelos seus nomes.
Não podemos transformar a incapacidade de alguns dirigentes em incapacidade de todo um povo.
E não podemos pedir ao cidadão comum que se reconcilie com alguém que nunca foi identificado como autor de determinado acto.
Unidade nacional, sim é bonito, mas unidade em torno de quê?
Unidade para fazer o quê?
Unidade para repartir ministérios?
Unidade para selecionar quem vai enriquecer às custas do povo?
Unidade para distribuir recursos do Estado entre os partidos e personalidades selecionados?
Unidade para criar condições financeiras para as mesmas personalidades políticas e partidos continuarem a disputar o poder e corromper cidadãos?
Se for isso, não é unidade nacional, é apenas partilha do Estado entre os principais responsáveis pela falta de desenvolvimento que enfrentamos.
Já vimos essa fórmula demasiadas vezes, fazem-se acordos, distribuem-se cargos, fala-se em inclusão, e o país continua sem estrada, o cidadão sem trabalho, sem justiça, sem escolas, sem emprego e sem perspectivas.
Não precisamos de um Governo de Unidade Nacional.
Se houver um Governo de Unidade Nacional, ele deve ser construído em torno de um programa nacional de transformação do Estado, com objetivos claros, critérios públicos de participação, responsabilidades definidas e mecanismos de fiscalização.
A unidade deve ser em torno de um projeto.
Não em torno de cargos.
O verdadeiro problema é maior do que as eleições.
Precisamos também de ter coragem para reconhecer uma realidade que muitas vezes evitamos, que é incompetência política. (estou a arranjar coragem para falar disso)
E os militares devem assumir resolver esse problema estrutural.
Temos um Estado frágil, instituições pouco independentes, uma economia incapaz de garantir dignidade à maioria dos cidadãos, um sistema político dominado há décadas pelas mesmas culturas e práticas e uma população que é chamada a votar sem que tenha tido acesso suficiente à educação cívica, à informação e às condições materiais necessárias para exercer plenamente a sua cidadania.
Não basta dizer que " temos muitos partidos", é preciso fiscalizar os partidos para que funcionem como partidos e não como centro de emprego.
Precisamos de democratizar os partidos e não elitizar a iniciativa de criar partidos.
E é precisamente por isso que precisamos de uma nova geração política.
Precisamos de uma nova geração política, mas não simplesmente de pessoas novas.
Não defendo que alguém deva participar na governação apenas porque é jovem ou porque nunca esteve no poder.
Ser novo não é uma competência.
Precisamos de novos políticos com integridade, competência, visão, independência, capacidade de execução e uma cultura política diferente.
Precisamos de pessoas que não vejam o Estado como prémio partidário.
Que compreendam que um ministério não é propriedade de um partido.
Que uma empresa pública não é uma fonte de financiamento político.
Que a administração pública não deve ser extensão de nenhum partido.
Que o dinheiro público pertence ao cidadão.
E que governar não é simplesmente ocupar um cargo.
Governar é transformar a vida das pessoas, governar é trazer o desenvolvimento.
É por isso que defendo uma frente a favor de um regime por 10 a 20 anos com o objectivo de estruturar a Guiné-Bissau, com uma nova camada de cidadãos politicamente conscientes.
Precisamos de cidadãos capazes de avaliar um governo não apenas pelo partido que representa, mas pelo que efetivamente entrega.
Não nos devemos enganar, a maior parte dos cidadãos vota exclusivamente pela memória histórica, pela identidade partidária, pela etnia, pelo parentesco ou pela lealdade pessoal.
Precisamos de chegar ao momento em que o cidadão possa dizer “Eu agradeço o que fizeste para a independência, mas vou votar para o desenvolvimento”
O Estado não pode continuar a começar de novo.
Por isso, considero particularmente importante aquilo que estamos a observar no atual período de transição, a ideia de continuidade do Estado.
Vemos projecto iniciados pelo Ex-presidente Umaro Sissoco Embalo a serem dados continuidade pelo actual regime militar.
Uma estrada não pertence a um partido.
Um hospital não pertence a um presidente.
Um aeroporto não pertence a um primeiro-ministro.
Uma escola não pertence a um governo.
São património do Estado e do povo.
É esta cultura que precisamos de construir.
O Estado deve continuar.
Os governos passam.
Os partidos passam.
Os presidentes passam.
O Estado fica.
E talvez esta seja uma das mudanças culturais mais importantes que precisamos de fazer na Guiné-Bissau.
A transição não pode ser um intervalo entre dois ciclos de poder.
É por isso que apoio, em primeira instância, a continuidade deste regime de transição enquanto instrumento para estruturar o Estado, desde que essa transição esteja vinculada a um projeto claro, transparente e verificável.
Não defendo uma transição indefinida.
Também não defendo eleições realizadas apenas para satisfazer a comunidade internacional ou o calendários políticos quando as condições fundamentais para a estabilidade institucional ainda não estiverem asseguradas.
O tempo da transição deve ser determinado pelas metas que precisam de ser cumpridas, e não pela vontade pessoal de quem ocupa o poder nem por organizações externas.
Se forem necessárias reformas adicionais, elas devem ser justificadas publicamente, submetidas a fiscalização e acompanhadas de metas concretas.
Precisamos de saber, o que será reformado, em quanto tempo, quem será responsável, quanto custará, quais os meios necessários, como será fiscalizado, quais serão os critérios para avaliar os resultados e qual será o mecanismo de saída da transição para uma ordem constitucional democrática.
Transição não pode significar poder sem limite.
Mas também não pode significar pressa irresponsável para regressar exatamente ao sistema que produziu a crise.
Se, apesar disso, se decidir pela formação de um Governo de Unidade Nacional, então esse governo não pode ser simplesmente uma fotografia com os mesmo de sempre sentados à mesma mesa para partilhar a Guiné-Bissau
Não aceito a ideia de que aqueles que participaram durante décadas e nos últimos tempos para que o país esteja nestas condições miseráveis, devam automaticamente ocupar novamente os lugares centrais da reconstrução, devemos dar oportunidade a outras personagens políticas
Aos que pertencemos a uma nova geração política, não podemos apenas reclamar o nosso lugar.
Temos de demonstrar que somos capazes de fazer diferente.
Não basta dizer que os outros falharam.
Precisamos de apresentar um projeto.
Não basta dizer que somos novos.
Precisamos de provar que somos melhores.
Se queremos participar na reconstrução da Guiné-Bissau, devemos fazê-lo com responsabilidade, competência, transparência e sentido de Estado.
E, apesar das nossas divergências, devemos ter a maturidade de nos unir em torno de algumas questões fundamentais com desenvolvimento, reforma da administração pública, educação, saúde, justiça, revisão constitucional e defesa do interesse nacional.
Não precisamos pensar da mesma maneira sobre tudo.
Precisamos apenas de saber em que pontos estamos dispostos a construir juntos.
É preciso dizer firmemente que, aqueles que participaram diretamente na construção do sistema que nos trouxe até aqui, não podem ser os únicos responsáveis por decidir como esse mesmo sistema deve ser reformado.
Não podem ser juízes em causa própria, isso seria colocar os responsáveis pela doença como únicos responsáveis pelo diagnóstico e pelo tratamento.
Precisa de uma nova cultura de poder.
Não precisamos de mais um pacto para dividir cargos.
Precisamos de um pacto para construir o Estado.
Não precisamos de reconciliação entre elites que disputam recursos.
Precisamos de reconciliação do cidadão com o próprio Estado.
Queremos que o cidadão volte a acreditar que a política serve para alguma coisa.
Que servir o Estado é uma honra e não uma oportunidade de enriquecimento.
É chegada a hora
Eu não quero uma Guiné-Bissau eternamente em transição.
Também não quero uma Guiné-Bissau eternamente a repetir eleições, crises, golpes, pactos, governos de inclusão e novos recomeços sem nunca construir instituições.
Quero uma transição que faça a transição deixar de ser necessária.
Quero um Estado que não precise de começar de novo sempre que muda o governo.
Queremos um Estado que seja maior do que qualquer partido.
É chegada a hora de estruturar o país.
E, se houver unidade, que seja uma unidade em torno desse objetivo.
Não para dividir a Guiné-Bissau entre os mesmos de sempre, mas para finalmente construir uma Guiné-Bissau que pertença a todos.



























