Por noticiasaominuto.com/ com LUSA
A vaga de protestos no Irão já ultrapassou as duas semanas e fez mais de 500 mortos, momento em que importa perceber o que está em causa, o motivo do descontentamento e que consequências daqui podem advir.
Nos últimos dias, os protestos antigovernamentais cresceram em dimensão e em violência. Aquilo que começou como uma demonstração de descontentamento para com a situação económica no país, transformou-se num movimento de massa que pretende desafiar os governantes autoritários do país.
Os manifestantes são agora designados de "vândalos" e as entidades internacionais já estão de olhos postos e atentos aos desenvolvimentos deste conflito interno.
Por que é que os iranianos estão em protesto?
Segundo recorda o The New York Times, a economia do Irão está sob pressão constante há vários anos, em grande parte como resultado das sanções americanas e europeias relacionadas às suas ambições nucleares.
Os recursos financeiros do país ficaram ainda mais afetadas quando em junho passado o país se envolveu numa guerra de 12 dias com Israel, conflito no qual os EUA acabaram por se envolver e bombardear as suas instalações nucleares.
Contudo, tudo descambou em dezembro, quando no meio de uma inflação persistentemente alta, comerciantes e estudantes universitários decidiram unir-se em protesto.
Como começaram os protestos?
Os protestos no Irão contra a deterioração da situação económica e a desvalorização da moeda começaram com manifestações em várias universidades, incluindo as mais prestigiadas como as de Teerão, Sharif e Beheshti.
Comerciantes de diversos mercados e centros comerciais do centro e sul de Teerão fecharam as suas lojas e marcharam pelas ruas adjacentes em resposta às fortes oscilações do mercado cambial, à queda acentuada do valor do rial e à instabilidade económica.
O governo iraniano reconheceu a legitimidade dos protestos contra as dificuldades económicas e defendeu o diálogo com os manifestantes, prometendo implementar reformas para preservar o poder de compra dos cidadãos. Porém, quando a manifestação se virou contra si, o cenário alterou-se.
Manifestação contra o governo
À medida que as manifestações aumentavam, começaram a transformar-se numa critica mais ampla que visava o regime teocrático do Irão. Nas redes sociais e na televisão, manifestantes foram vistos entoando slogans como "Morte ao ditador" e "Iranianos, levantem suas vozes, reivindiquem seus direitos".
No segundo dia consecutivo de protestos, a Guarda Revolucionária alertou os participantes num comunicado que se oporia a "qualquer tentativa de (...), caos ou ameaça à segurança".
Ao mesmo tempo, a agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, afirmou que os "meios de comunicação anti-iranianos e organizações de segurança estrangeiras, através de alguns dos seus agentes internos, estiveram presentes em algumas concentrações para transformar os protestos em distúrbios".
As primeiras vitimas mortais e o intensificar do conflito
A primeira vítima mortal das manifestações aconteceu ao 5.º dia de protesto.
Um membro das forças de segurança foi morto no oeste do Irão e tornou-se oficialmente a primeira (de muitas) vítimas, dos confrontos que entretanto colocaram frente a frente manifestantes e forças de segurança. Hoje, o número ascende a, pelo menos, 538 mortos. O número pode ser, no entanto, muito maior, dado que o corte de internet que dura há várias horas no país, não permite fazer um cálculo real.
Recorde-se que, na quinta-feira, o governo iraniano decidiu cortar o acesso à internet e o sinal de telemóveis em todo o país, depois de terem sido publicados nas redes sociais vídeos que mostravam uma multidão em protesto. Esta proibição decorre já há 84 horas.
Pedido de apoio e contenção
Entretanto, têm sido várias vozes a apelar á contenção. O opositor no exílio Reza Pahlavi, filho do antigo xá do Irão, apelou às forças de segurança para que "se unam ao povo", face ao movimento de protesto que já dura há duas semanas.
Já o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou ao Irão para se "abster do uso da força desnecessária ou desproporcionada". "Todos os iranianos deveriam poder expressar as suas queixas pacificamente e sem medo. Os direitos à liberdade de expressão, de associação e de reunião pacífica, consagrados no direito internacional, devem ser plenamente respeitados e protegidos", declarou.
Iranianos querem a intervenção dos EUA?
O chefe da diplomacia do Irão, Abbas Araghchi, disse esta segunda-feira que os protestos em todo o país "tornaram-se violentos e sangrentos para dar uma desculpa" para uma intervenção militar dos Estados Unidos.
Araghchi não apresentou provas para suportar esta alegação, mas garantiu que "a situação está sob controlo total" em todo o país.
Apesar disso, Donald Trump anunciou, também hoje, que os líderes do Irão o contactaram para negociar após este ter ameaçado com uma ação militar. Apesar de afirmar que estes "querem negociar", Trump diz estar a receber atualizações de hora em hora sobre os protestos e que a administração que lidera "tomará uma decisão".
"Talvez tenhamos de agir antes de uma reunião" disse.
Um dia antes, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, prometeu que, "no dia em que o Irão seja libertado do jugo da tirania", os dois países voltarão a ser "parceiros fiéis" para construir um futuro de prosperidade e de paz para os dois povos.






