© REUTERS Por LUSA 10/08/2026
O major Robert Brovdi, um dos comandantes mais proeminentes da nova geração de militares ucranianos, disse à agência Associated Press (AP) que as suas forças poderiam atingir sete vezes mais alvos militares na Crimeia se o financiamento prometido pelos aliados ocidentais chegasse mais rapidamente.
"A Crimeia insere-se nos pilares conceptuais essenciais para pôr fim à guerra", declarou.
Apesar dessa limitação, a campanha de verão já provocou danos significativos, atingindo pontes ferroviárias, depósitos de combustível e infraestruturas elétricas para cortar linhas de abastecimento e cegar as defesas aéreas russas à medida que os drones avançam.
Segundo Brovdi, as suas forças dispõem apenas de 14% da capacidade necessária para executar a campanha na Crimeia em pleno.
Antigo empresário do comércio internacional de cereais, Brovdi juntou-se voluntariamente à defesa territorial nos primeiros dias da invasão e rapidamente ascendeu ao comando de uma das brigadas de drones mais eficazes do país, antes de ser nomeado líder das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, uma estrutura sem precedentes antes da guerra.
"Não se trata de falta de capacidade de produção dos fabricantes ucranianos para produzir drones em quantidade suficiente", explicou. "É o problema banal do financiamento tardio atribuido pelos nossos parceiros, mas que chega muito mais devagar do que os nossos planos exigem."
Patrono dedicado das artes, Brovdi transformou o seu posto de comando subterrâneo num espaço semelhante a um museu, com obras de artistas ucranianos, incluindo da pintora Maria Prymachenko, acompanhadas de legendas e códigos QR.
As peças convivem com dezenas de ecrãs que transmitem imagens em direto da frente de combate e dados em tempo real para decisões militares. Os soldados podem beber café, ler, treinar ou descansar em cápsulas, um ambiente mais próximo de um escritório do que de uma sala de guerra.
Brovdi destacou que, em quatro recentes ataques maciços de mísseis russos a partir da Crimeia, apenas cinco foram lançados, atribuindo a redução à destruição sistemática de mais de 300 ativos de defesa aérea russos, incluindo sistemas antiaéreos, radares e equipamentos de guerra eletrónica.
A infraestrutura elétrica da península tornou-se um alvo recorrente, deixando os militares russos "cegos", dependentes apenas de armas ligeiras, com Brovdi a dizer já ter pedido desculpa publicamente aos civis da Crimeia pelos cortes de energia.
Com recurso à ligação Starlink, as forças ucranianas conseguem destruir alvos fortemente defendidos com apenas três drones, calibrando munições diferentes consoante o objetivo - uma ponte, um camião cisterna ou um comboio em movimento - e evitando atingir infraestruturas civis.
"Criar condições que impossibilitem qualquer capacidade militar de permanecer ali tornará a Crimeia irrelevante como base de operações", afirmou, acrescentando que Kyiv procura também desmantelar o papel da península como base naval russa.
Moscovo procura contrariar a vantagem ucraniana instalando sistemas de bloqueio para degradar a ligação Starlink e desenvolvendo um sistema próprio de comunicações por satélite.
Brovdi alertou ainda para o aumento de drones iranianos Shahed a jato, mais difíceis de abater, e para a capacidade russa de lançar salvas de até 77 mísseis balísticos, com planos para elevar esse número a 200, enquanto a Ucrânia enfrenta escassez de mísseis interceptores Patriot.
Entre os novos alvos está a plataforma russa de comércio online Wildberries, que o comandante descreveu como um "administrador da guerra", por vender produtos destinados às forças armadas. Os ataques visam também fazer os cidadãos russos sentir diretamente o impacto da guerra.
Brovdi sublinhou que a perda de acesso à plataforma afeta o quotidiano de milhões de russos que se julgavam imunes às ações do seu país agressor.
"Acabou por ser um sensor sensível do conforto da vasta população russa - pessoas que se consideram completamente intocadas pelas ações do país agressor", acrescentou.
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