Por Cnnportugal.iol.pt, 08/08/2026
Cada vez mais mulheres asiáticas estão a divorciar-se aos 50 e 60 anos, depois de décadas em casamentos infelizes. Para muitas, a separação não representa um fracasso, mas liberdade e a oportunidade de recomeçar
Eiko Toyama esperou 32 anos para deixar o marido.
Ao longo do casamento, contou, foi ela quem tratou de todas as tarefas domésticas e dos filhos na casa da família, no Japão, além de contribuir financeiramente para o sustento familiar. O marido “queria controlar tudo”, desde a sua vida social às ambições profissionais, fazendo-a sentir-se presa e infeliz. Ainda assim, aguentou pelo bem dos dois filhos.
Isso mudou finalmente quando fez 60 anos. Os filhos, já adultos, deixaram de precisar dela, e o marido estava saudável - ainda não era suficientemente idoso para precisar de alguém que cuidasse dele. Era uma preciosa janela de oportunidade, e ela aproveitou-a.
“Não senti nada além de felicidade depois do divórcio. Foi a única emoção que senti”, afirmou. “Estava tão feliz que me apetecia correr por todo o lado.”
Histórias como a sua são cada vez mais comuns em todo o mundo, à medida que o número de “divórcios grisalhos” - separações entre casais com 50 ou mais anos - aumenta todos os anos. A tendência tem sido observada em países como os Estados Unidos e noutras partes do mundo, mas ganha um significado particular na Ásia, onde, em geral, as pessoas vivem mais tempo.
Muitos lugares, como a Coreia do Sul, o Japão, Hong Kong, Taiwan e a China continental, enfrentam crises demográficas, à medida que as taxas de natalidade diminuem e as populações idosas aumentam.
O aumento dos divórcios na terceira idade também é frequentemente impulsionado pelas mulheres - que, por muito tempo, enfrentaram normas de género restritivas em sociedades asiáticas conservadoras, bem como barreiras legais, financeiras e sociais à procura do divórcio. Esse cenário está agora a mudar; no Japão, por exemplo, entre os casais que se separaram após décadas de casamento, em 2024 houve o dobro de mulheres a pedir o divórcio do que homens.
Isto poderá transformar a realidade da população idosa da Ásia na próxima década: mais pessoas a viver sozinhas e a precisar de maior apoio social, como previram os especialistas - mas, talvez, também mais capacitadas para seguir o seu próprio caminho.
Para mulheres como Toyama, que cresceram nas décadas de 1960 e 1970, o divórcio era pouco comum - e frequentemente recebido com julgamentos e vergonha.
Naquela época, para uma mulher, “divorciar-se era uma espécie de fim da vida”, afirmou Sangyoub Park, professor associado de Sociologia na Universidade Washburn, no Kansas, que escreveu em 2023 um artigo sobre divórcios numa fase tardia da vida na Coreia do Sul.
Isso começou a mudar na segunda metade do século XX, à medida que mais mulheres entraram no mercado de trabalho e prosseguiram estudos superiores. Os divórcios entre os idosos têm aumentado de forma constante - sobretudo desde que a Geração X começou a chegar aos 50 anos na última década, afirmou Park.
Trata-se de um grupo demográfico importante: nascida entre 1965 e 1980, a Geração X foi a primeira a crescer numa Ásia em processo de globalização, a ver televisão e filmes norte-americanos. Através da cultura popular, absorveu também valores norte-americanos, como dar prioridade às “escolhas pessoais em vez das obrigações familiares”, o que - somado a fatores económicos mais amplos - contribuiu para uma mudança gradual das atitudes em relação ao divórcio, explicou Park.
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| Idosos caminham por um parque em Xangai, na China, a 10 de abril de 2021. (Qilai Shen/Bloomberg/Getty Images) |
Isso reflete-se nos dados da região. Na Coreia do Sul, no ano passado, o número de divórcios entre casais que estavam casados há pelo menos 30 anos ultrapassou, pela primeira vez, o de casais mais jovens, casados há menos de cinco anos.
Taiwan também registou um aumento dos divórcios entre casais juntos há muitos anos, segundo dados oficiais. Em Hong Kong, vários escritórios de advogados descreveram um aumento dos divórcios na terceira idade e, na China continental, o número de divórcios entre idosos duplicou nos últimos 30 anos.
Parte deste fenómeno poderá ser demográfica: uma sociedade envelhecida tem um grupo maior de pessoas mais velhas e, por isso, terá também mais divórcios entre idosos. Atualmente, os jovens casam-se menos, pelo que os seus divórcios também são menos numerosos.
Mas as reformas jurídicas também fizeram uma enorme diferença, criando redes de proteção para mulheres que anteriormente dependiam dos rendimentos dos maridos.
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| Idosos sentados num banco circular em redor de uma grande árvore, numa praça pública, em Chongqing, na China, a 27 de janeiro de 2026. (Cheng Xin/Getty Images) |
Por exemplo, em 2014, a Coreia do Sul decidiu que as futuras pensões e indemnizações de cessação do contrato de trabalho poderiam ser incluídas na divisão de bens. Isso significa que, se uma dona de casa tratou de todo o trabalho doméstico e dos filhos durante o casamento, permitindo assim que o marido trabalhasse, tem direito a parte da pensão de velhice dele depois do divórcio. O Japão introduziu uma reforma semelhante em 2007.
Estas medidas são especialmente importantes, tendo em conta a elevada taxa de pobreza entre os idosos na Ásia. Entre os países da OCDE, a Coreia do Sul apresenta a taxa de pobreza mais elevada entre as pessoas com mais de 65 anos; Hong Kong, que não é membro da OCDE, apresenta valores igualmente elevados. Embora o Japão esteja ligeiramente abaixo, continua acima da média mundial.
E, apesar destas reformas, continuam a existir profundas desigualdades de género.
“Para as mulheres em particular, a principal razão pela qual não conseguem divorciar-se é a incapacidade de serem financeiramente independentes”, afirmou Toyama, apontando para os salários mais baixos das mulheres no Japão. “Quando uma mulher se torna dona de casa a tempo inteiro, é muito difícil deixar o marido e tornar-se independente.”
“Os meus dois filhos são rapazes, mas, se tivesse uma filha, dir-lhe-ia constantemente: ‘Aconteça o que acontecer, nunca deixes o teu emprego’”, acrescentou.
O maior fator comum em toda a Ásia é a longevidade, afirmou Park - e a forma como as pessoas encaram de maneira diferente a fase final das suas vidas.
“Ter mais 20 ou 30 anos cria novas expectativas”, com as pessoas mais “dispostas a abandonar um casamento infeliz e insatisfatório”, afirmou. O divórcio “já não é um fracasso - pelo contrário, é algo novo. É o início de um novo capítulo”.
Iman Lau, de 50 anos, viveu esse renascimento em primeira mão. Ao crescer em Hong Kong, as suas expectativas em relação ao casamento não eram propriamente inspiradoras: os cônjuges comem juntos, fazem atividades juntos e partilham vidas pacificamente monótonas, pensava. “É simplesmente assim que o casamento é.”
Essa mentalidade manteve-se mesmo durante anos de infidelidade por parte do marido. Perguntava-se se teria feito algo de errado, se não seria suficientemente boa. No fim, foi ele quem deu início ao divórcio, apesar dos apelos dela para continuarem juntos; chegou mesmo a compará-la a um pássaro que se recusava a sair de uma gaiola aberta.
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| Iman Lau, de 50 anos, posa para uma fotografia no seu apartamento, em Hong Kong. (Noemi Cassanelli/CNN) |
“Sou uma mulher bastante tradicional”, afirmou. “Em toda a minha vida, nunca pensei que me fosse divorciar.”
Foi um choque, como se tivesse perdido um membro ou um órgão. Mas também a fez perceber que, algures durante aquele casamento de 14 anos, tinha perdido o sentido de quem era, negligenciando os amigos e os seus interesses para simplesmente “girar à volta dele”, afirmou.
Prometeu mudar isso este ano, depois de concluir o divórcio, e lançou-se ao mundo com uma energia determinada. Juntou-se a grupos de encontros online e fez novos amigos. Descobriu uma paixão por atividades ao ar livre, como caminhadas, natação, canoagem e snorkeling. Está a aprender a tocar piano e adora jazz.
Depois de viajar pela Europa, imprimiu e pendurou fotografias das férias no apartamento; é a sua “parede da felicidade”, que lhe recorda a alegria que sentiu ao percorrer a Sicília e ao acampar na Geórgia.
“Não sabia que a vida sozinha podia ser tão extraordinária”, afirmou.
Toyama iniciou uma viagem semelhante, descrevendo-se, aos 63 anos, como alguém “cheia de vida”.
Começou a fazer transmissões em direto no TikTok e criou uma conta numa aplicação de mensagens para dar conselhos às pessoas que lhe telefonam e enviam mensagens todas as semanas. Está a trabalhar no lançamento de novos negócios, incluindo uma agência de casamentos e uma empresa de eventos ao vivo.
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| Depois do divórcio, Eiko Toyama começou a fazer transmissões em direto no TikTok. (Yumi Asada/CNN) |
“Durante 32 anos, não pude fazer nada, mas agora finalmente estou no terceiro ano em que posso fazer tudo o que quiser”, afirmou. O processo não foi fácil, mas quaisquer desafios que enfrente agora continuam a ser “muito melhores do que a ansiedade de estar com o meu ex-marido”, afirmou. “Acima de tudo, há liberdade.”
As duas mulheres disseram ter notado uma mudança nas atitudes das pessoas quando partilharam a notícia do divórcio. No caso de Toyama, as reações foram extremamente positivas, com algumas pessoas a demonstrarem até inveja. No caso de Lau, dividiram-se mais - e de formas reveladoras.
“Amigos da minha idade tratam o assunto como um tabu, como se tivesse havido uma morte na família - não se atrevem a perguntar, limitam-se a dizer: ‘Lamento muito’”, afirmou. “Mas, com os jovens da Geração Z, toda a gente me dá os parabéns.”
O aumento dos divórcios grisalhos poderá começar a estabilizar quando os millennials - que se casaram em circunstâncias e sob atitudes sociais muito diferentes das gerações anteriores - começarem a chegar à idade da reforma, afirmou Park. Mas isso só acontecerá daqui a cerca de uma década, e as separações deverão continuar a aumentar até lá.
Para esses futuros divorciados, Lau deixa algumas palavras de encorajamento do outro lado da experiência. “Na verdade, este mundo é extraordinário”, afirmou.
“Os asiáticos, em particular, pensam muitas vezes que o divórcio é como uma mancha ou um tabu na vida, como um rótulo de fracasso. Mas isso não é verdade”, acrescentou. “Pensem nisso apenas como dar a si próprios a oportunidade de perceber que podem ter uma vida ainda mais vibrante - desde que estejam dispostos a dar esse passo.”


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