© Reuters Por LUSA 11/02/2026 Numa entrevista à agência Lusa, o vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico (OMI), João Henriques, salientou também que a tensão existente entre o Irão e os Estados Unidos "poderá sempre degenerar em conflito", mas continua "algo limitada no curto prazo", com China e Rússia a reservarem-se apenas ao papel de protetores diplomáticos do Irão e sem intervir diretamente numa guerra.
"Haverá sempre a possibilidade de uma escalada controlada com ataques limitados, com recursos à pressão económica. A Rússia e a China irão, seguramente, afirmar-se mais como protetores diplomáticos e parceiros económicos do Irão. Não irão intervir, estou certo, no campo militar, pelo menos diretamente. O custo de uma eventual intervenção da Rússia ou da China seria bastante elevado", argumentou.
O analista português considerou ser "bastante limitado" um eventual regresso a Teerão de Reza Pahlavi, político iraniano e dissidente exilado nos Estados Unidos, filho mais velho de Mohammad Reza Pahlavi, o último Xá do Irão, derrubado pela Revolução Islâmica de 11 de fevereiro de 1979.
"Definitivamente não. As hipóteses de um regresso triunfante de Reza Pahlavi são, na atualidade, bastante limitadas. A sua figura é essencialmente conhecida nos Estados Unidos, onde desfruta com a sua família de uma vida de amplo privilégio", sustentou João Henriques.
"De resto, para as gerações mais antigas, o clã Pahlavi e a sua polícia sanguinária, o SAVAK, que suportou o regime, são de triste memória. Para as gerações mais antigas, claro. Claramente o apoio interno a Reza Pahlavi no Irão atual é limitado, sendo mesmo simbólico em determinados círculos", acrescentou.
O vice-presidente do OMI lembrou que, em 2025, o regime iraniano voltou a estar sujeito a uma enorme pressão internacional, tanto no domínio económico como na esfera diplomática, essencialmente protagonizada pelos Estados Unidos e pela União Europeia (UE), a que foram acrescidas as sanções ligadas ao processo nuclear promovidas pela ONU.
"Tudo isto veio agravar duramente a diminuição das receitas provenientes da produção de petróleo, o que, por sua vez, agravou os níveis da já elevada inflação e a consequente desvalorização do real, a par da escassez de bens essenciais e dos serviços básicos, como a água e a energia", sintetizou.
Sobre os protestos registados no final de 2025, João Henriques realçou que, rapidamente, "evoluíram de simples atos de descontentamento para manifestações políticas abertamente contra o regime teocrático", exigindo respeito pelos mais elementares direitos da população, indo mesmo até ao apelo de mudança de regime.
"As drásticas sanções internacionais associadas a uma elevada contestação social acabaram por levar o regime a endurecer a sua resposta face aos protestos de grande parte da população, que segundo a liderança iraniana constituem uma verdadeira ameaça existencial", sublinhou.
João Henriques afirmou que Teerão "não tem quaisquer dúvidas" que estas ameaças "estão a ser promovidas pelos seus principais inimigos externos", tendo já provocado centenas de mortes e milhares de detidos.
"Diria que, nesta altura, segundo as fontes iranianas, 81% dos detidos e das vítimas da repressão iraniana são de pessoas ligadas ao crime organizado, à máfia, segundo os seus dirigentes, segundo os seus líderes, e também à infiltração de serviços de informações, nomeadamente a CIA e a Mossad", afirmou.
Com a convocação para quarta-feira, de uma "demonstração de força" simbolizada por manifestações de apoio ao regime em todo o país, João Henriques referiu que existe "um risco elevado de contramanifestações e confrontos violentos no aniversário da Revolução Islâmica".
"São prováveis protestos espontâneos ou organizados contra esta demonstração oficial, especialmente nos meios urbanos. As forças de segurança tratarão qualquer manifestação como uma sabotagem estrangeira, recorrendo ao habitual uso da força", sublinhou, lembrando o histórico recente de repressão.
Para João Henriques, o "grande orgulho" dos 47 anos do regime teocrático iraniano é a independência que o país conquistou ao Ocidente nos mais diversos domínios da sociedade, "mas a dura realidade" quotidiana vivida pela população "faz temer uma profunda incerteza quanto ao seu futuro".
"Na verdade, a economia enfrenta cada vez mais um cenário de colapso, com uma inflação galopante e a bem preocupante desvalorização da moeda do real. Todo este cenário é agravado por sanções que afetam sobremaneira a vida da população iraniana", concluiu.