segunda-feira, 6 de julho de 2026

Hamas prepara-se para dissolver administração que gere Gaza... O Hamas prepara-se para dissolver a sua administração, que governou a Faixa de Gaza durante quase 20 anos, avançaram responsáveis do grupo islamita palestiniano.

Foto: Eyad Baba/AFP      Por  JN/Agências   6 de julho, 2026 

A decisão pode abrir caminho para que o território seja gerido por um comité tecnocrático já formado, cuja missão é garantir a representação palestiniana nas instituições de Gaza.

"O movimento decidiu dissolver a comissão do Governo de Gaza e nomear uma figura de consenso nacional para supervisionar os trabalhos até que o Comité Nacional para a Administração de Gaza assuma oficialmente as suas responsabilidades", disse um responsável do Hamas, citando pela agência francesa de notícias AFP sob anonimato, já que não estava autorizado a falar publicamente sobre o assunto.

A assessoria de imprensa do Governo do Hamas em Gaza anunciou que irá realizar hoje uma "importante conferência de imprensa".

A iniciativa do Hamas marca uma importante viragem política do movimento islamita, que assumiu o poder na Faixa de Gaza em 2007, após confrontos com o Fatah, o partido do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, sediado em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.

"Os movimentos [palestinianos reunidos no Cairo] saudaram a decisão do Hamas, considerando-a um passo importante que permite ao Comité Nacional assumir o seu papel na governação", disse outro representante do Hamas.

Poucos meses após o início da guerra entre Israel e o Hamas, desencadeada pelo ataque em solo israelita de 07 de outubro de 2023, o movimento islamita anunciou a sua disponibilidade para ceder o poder na Faixa de Gaza a outra liderança palestiniana.

Desde então, têm sido discutidos vários cenários, mas, na prática, o progresso estagnou.

Um dos principais pontos de discórdia continua a ser o desarmamento do Hamas, que afirma que só o fará no âmbito de uma iniciativa política palestiniana, posição rejeitada por Israel.

A dissolução do comité do Hamas que administra a Faixa de Gaza permite a instalação do Comité Nacional para a Administração de Gaza, liderado por Ali Shaath, que deverá assumir a gestão diária do território.

Este comité foi criado pelo Conselho de Paz, organização instituída pelo presidente dos EUA, Donald Trump, mas permaneceu parado e fora de Gaza durante vários meses.

Angolanos vão poder entrar em Macau sem visto prévio... Macau anunciou hoje que os angolanos vão poder entrar na região sem obter visto com antecedência, algo que, segundo a Câmara de Comércio de Angola em Macau (CCAMO), irá facilitar as viagens de negócios.

© Lusa   06/07/2026 

As duas jurisdições irão firmar um acordo sobre a dispensa mútua de visto, segundo uma ordem executiva, assinada pelo líder do Governo de Macau, Sam Hou Fai. 

A ordem, datada de 02 de julho, mas publicada hoje no Boletim Oficial de Macau, confere ao secretário para a Administração e Justiça, Wong Sio Chak, "todos os poderes necessários" para celebrar o acordo com o Governo de Luanda.

O presidente da assembleia-geral da CCAMO, Pedro Lobo, disse à Lusa que a medida "pode ajudar, e muito, as relações comerciais (...), ainda para mais com o consulado a encerrar".

Em maio, o Ministério das Relações Exteriores angolano anunciou o fecho de quatro consulados, incluindo o de Macau, algo que justificou com um excesso de pessoal nas representações externas e a insuficiência de orçamento.

O cônsul de Angola na região chinesa, Eduardo Velasco Galiano, era também o delegado angolano junto do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum de Macau).

"Há bastante tempo que as relações entre Macau e Angola que se estavam estreitar", disse Pedro Lobo, mas a medida vem "tirar alguma instabilidade e incerteza" nas viagens de negócios.

O dirigente da CCAMO confirmou que "sempre houve problemas" nas viagens de Angola para Macau e recordou o caso de empresários angolanos que "tiveram de voltar para trás, porque não tinham visto para fazer trânsito em Hong Kong".

Apesar das "grandes expectativas", Lobo defendeu que a isenção de visto só terá um impacto significativo, caso sejam estabelecido voos diretos de passageiros entre Angola e Macau ou as regiões vizinhas de Hong Kong e Cantão.

Angola irá tornar-se o quarto país de língua portuguesa, a seguir a Portugal, Brasil e Cabo Verde, cujos cidadãos beneficiam de isenção de visto, a beneficiar deste regime com Macau.

A China estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau como plataforma para a cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003 e, nesse mesmo ano, criou o Fórum de Macau.

O organismo integra os membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial.

O Fórum de Macau organiza anualmente a Semana Cultural China-Países de Língua Portuguesa, cuja edição deste ano, a decorrer até 10 de julho, não conta com artistas angolanos devido a preocupações com a epidemia de Ébola.

Em 22 de junho, o secretário-geral adjunto do Fórum de Macau, Danilo Henriques, indicou que a decisão se deve a instruções das autoridades sanitárias do território.

O Governo de Macau decidiu impor um período de vigilância de 21 dias a todas as pessoas provenientes dos 10 países africanos em risco por causa da epidemia de Ébola.

Entre esses países está Angola, que faz fronteira com a República Democrática do Congo, onde começou o surto, que depois evoluiu para epidemia.

Em maio de 2025, Macau e Angola assinaram um acordo para trocar informações, de forma a prevenir a lavagem de dinheiro e o financiamento ao terrorismo ou à proliferação de armas de destruição maciça.


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O Presidente cabo-verdiano vai condecorar a seleção nacional de futebol com a mais alta distinção do Estado pelo resultado no Mundial 2026, considerando o desempenho como um recomeço e um redimensionamento do país.

Taiwan alerta para aumento dos destacamentos navais chineses no Pacífico... A Marinha chinesa mantém destacadas quatro forças-tarefa navais no Pacífico Ocidental, afirmou hoje o diretor do Gabinete de Segurança Nacional (NSB) de Taiwan, Tsai Ming-yen, que alertou para uma "tendência crescente" deste tipo de destacamentos.

© Lusa    06/07/2026 

Em declarações citadas pela agência noticiosa CNA, Tsai afirmou que uma das forças navais chinesas se encontra atualmente no Pacífico Sul, duas operam a sul da ilha japonesa de Amami Oshima e uma quarta está posicionada em águas a nordeste das Filipinas. 

O responsável salientou que o período entre julho e setembro corresponde à "época alta" dos exercícios e treinos militares de rotina do Exército chinês, em particular ao nível dos teatros de operações, acrescentando que o NSB acompanha "de perto" a evolução destes movimentos.

"O Gabinete observará se os exercícios de rotina da China este ano apresentam alguma particularidade e compará-los-á com manobras anteriores para detetar possíveis novos padrões", explicou.

As declarações surgem dois dias depois de o secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional de Taiwan, Joseph Wu, ter afirmado que Pequim mobilizou um número "recorde" de mais de 110 navios da Marinha e da Guarda Costeira ao longo da primeira cadeia de ilhas.

A primeira cadeia de ilhas corresponde à linha de arquipélagos que se estende do Japão às Filipinas, passando por Taiwan, e separa os mares costeiros chineses do oceano Pacífico.

"A mobilização marítima em grande escala da China ao longo da primeira cadeia de ilhas é um sinal claro do seu expansionismo (...). Este valentão tem dinheiro para gastar indiscriminadamente, mas nada para o seu próprio povo", escreveu Wu na rede social X.

Estes movimentos coincidem com o aumento das patrulhas da Guarda Costeira chinesa em águas a leste de Taiwan -- a mais recente iniciada no sábado --, que suscitaram protestos de Taipé e de vários países europeus, que consideram estas operações uma ameaça à estabilidade regional.

Na semana passada, o Governo chinês defendeu que estas operações são "razoáveis, legais, legítimas e necessárias" e acusou o Japão e as Filipinas de violarem o direito internacional e de atentarem contra os direitos marítimos da China na região.

O ministério da Defesa Nacional de Taiwan detetou no mês passado mais de uma centena de embarcações oficiais chinesas nas imediações da ilha e contabilizou já cerca de 30 este mês.

Entretanto, o Ministério da Defesa chinês anunciou no domingo que as Marinhas da China e da Rússia vão realizar exercícios militares durante este mês nas águas e no espaço aéreo chineses, aos quais se seguirá uma operação de "patrulhamento marítimo conjunto" em "áreas relevantes" do oceano Pacífico.


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RÚSSIA: Abatidos mais de 500 drones ucranianos, refinaria atingida na Rússia... A Rússia abateu 519 drones ucranianos durante a madrugada de hoje sobre cerca de 20 regiões russas e a Crimeia anexada, informou o Ministério da Defesa russo, adiantando que foi atingida uma refinaria a 250 quilómetros de Moscovo.

© YASUYOSHI CHIBA/AFP via Getty Images       Por  LUSA   06/07/2026 

Esses ataques com drones ocorreram ao mesmo tempo que diversos ataques aéreos russos mataram pelo menos 10 pessoas na região de Kyiv, onde jornalistas da Agência France Presse (AFP) testemunharam dezenas de explosões.

No ataque da madrugada de hoje, a Ucrânia atingiu uma refinaria na região russa de Yaroslavl, a 250 quilómetros a nordeste de Moscovo, interrompendo o fornecimento de energia para a cidade portuária de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro da Rússia.

Esta não é a primeira vez que a Ucrânia ataca esta instalação, uma das maiores do seu género na Rússia.

Em maio, a refinaria já tinha sido ser atingida por fragmentos de drones.

Na região de Yaroslavl, duas pessoas ficaram feridas num "ataque massivo" de drones ucranianos, mais de 70 dos quais foram abatidos, segundo anunciou o governador regional, Mikhail Yevrayev, no Telegram.

Os ataques ucranianos que tiveram como alvo a região de Moscovo, sendo que 11 drones que se dirigiam para a capital russa foram destruídos, e 56 foram abatidos na região de Leningrado (noroeste), segundo autoridades locais.

Drones ucranianos também foram abatidos sobre a Península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014.

Nessa região, Sebastopol, na costa do Mar Negro, está sem eletricidade devido a um ataque da Ucrânia à infraestrutura energética próxima da cidade, segundo Mikhail Razvozhayev, governador nomeado por Moscovo.

A Rússia tem atacado a Ucrânia diariamente desde que lançou sua ofensiva em larga escala, em fevereiro de 2022.

Por sua vez, o exército ucraniano lança drones regularmente contra a Rússia, visando principalmente a infraestrutura energética que permite a Moscovo financiar o seu esforço de guerra.

As negociações mediadas pelos Estados Unidos para pôr fim a esse conflito estão atualmente paralisadas.


Bombardeio contra Kiev mata 14 pessoas antes da reunião de cúpula da Otan

Por   swissinfo.ch  06 julho 2026 
A Rússia lançou mísseis e drones nesta segunda-feira (6) contra prédios residenciais em Kiev pela segunda vez em uma semana, uma ofensiva que deixou pelo menos 14 mortos um dia antes do início de uma reunião de cúpula crucial da Otan.

O presidente ucraniano Volodimir Zelensky fez um apelo aos países aliados a adotarem “decisões firmes” para aumentar o fornecimento de sistemas de defesa aérea à Ucrânia após o ataque, que aconteceu poucos dias após outro bombardeio russo matar mais de 30 pessoas em Kiev.

O ataque desta segunda-feira abriu uma cratera em um bloco de apartamentos de vários andares na capital ucraniana, destruindo os andares superiores. Durante a noite, jornalistas da AFP em Kiev ouviram mais de 10 explosões durante um alerta de mísseis balísticos.

Este foi o segundo ataque em que a Rússia utilizou mísseis balísticos difíceis de interceptar, o que provocou um novo e desesperado apelo de Zelensky para que os aliados enviem mísseis avançados para os sistemas de defesa aérea Patriot, de fabricação americana.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Zelensky devem conversar sobre a guerra iniciada em 2022, à margem da cúpula da Otan que começa na terça-feira em Ancara (Turquia).

“É de importância crucial que o mundo — e, sobretudo, os Estados Unidos e nossos parceiros europeus — saia da cúpula da Otan em Ancara com decisões firmes em apoio à nossa defesa aérea e, portanto, à proteção da vida”, declarou Zelensky nas redes sociais.

Pelo menos 14 pessoas morreram em Kiev e sua região após o lançamento de 68 mísseis e 351 drones, acrescentou o presidente. Os ataques também deixaram mais de 60 feridos.

As autoridades de Vyshneve, um subúrbio de Kiev, ordenaram a saída dos moradores devido à possível presença de munições não detonadas entre os escombros.

– Um ataque contundente –

Os habitantes do distrito de Podilski, zona norte da capital, viveram momentos de angústia.

“Às 1h30, aconteceu um impacto muito forte. Uma onda expansiva, todas as janelas voaram. E depois atacaram mais três vezes”, contou à AFP Oleksandr Bakhlukov, que mora em um prédio próximo. “Pedaços de vidro caíram por todos os lados. Não sobrou uma janela de vidro no apartamento”, acrescentou o homem de 68 anos.

O Ministério da Defesa da Rússia anunciou um “ataque em larga escala” com mísseis e drones contra o que descreveu como “empresas do complexo militar-industrial” e contra instalações de energia em várias regiões ucranianas.

Quase 30 edifícios residenciais em Kiev foram atingidos e as equipes de resgate continuavam removendo os escombros várias horas depois do ataque, informaram as autoridades.

Zelensky disse que o Exército ucraniano derrubou os drones e mísseis de cruzeiro russos, mas que dispõe de “um fornecimento insuficiente de mísseis interceptadores” para deter os mísseis balísticos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o ataque demonstra que a Ucrânia precisa “com urgência” de mais defesa aérea e que a questão será abordada na reunião da Otan.

O Exército russo afirmou que suas forças também derrubaram mais de 500 drones ucranianos durante a noite.

– Apagão na Crimeia –

Na Crimeia, o governador da península designado por Moscou, Mikhail Razvozhayev, anunciou no Telegram que, “após um ataque inimigo contra a infraestrutura de energia perto de Sebastopol”, a cidade ficou sem eletricidade.

O presidente Trump deve se encontrar com Zelensky na terça-feira em Ancara. “Obviamente vai se reunir com ele para conversar sobre como acabar com a guerra”, declarou um funcionário de alto escalão do governo americano que pediu anonimato.

Trump também tem em sua agenda uma conversa com o presidente russo, Vladimir Putin, para tentar reativar os esforços de paz na Ucrânia.

A Rússia lança com frequência ondas de mísseis e drones contra as cidades ucranianas desde o início da invasão do país vizinho, em fevereiro de 2022.

O conflito entre Ucrânia e Rússia é o mais letal na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Ataques e xenofobia na África do Sul: Fuga da África do Sul expõe transportadores moçambicanos a medo... Por entre o fluxo constante de moçambicanos que escapam a ataques xenófobos na África do Sul, transportadores relatam, em Maputo, fugas marcadas pelo medo e a urgência de resgatar compatriotas, enfrentando a incerteza de perder o sustento.

© Lusa    06/07/2026 

João Zandamela, transportador moçambicano com mais de 20 anos de experiência nas rotas entre Maputo, Joanesburgo e Durban, descreve à Lusa um cenário que se alterou rapidamente nos últimos dias, com o fluxo de passageiros a inverter-se quase por completo, apenas de regresso a Moçambique, entre tensões e incertezas em cada viagem desde o país vizinho.

"Fui ontem a tarde [à África do Sul], cheguei ontem à noite. Carreguei e saí lá para as 22:00, agora estou a chegar, mas na nossa ida para Durban as coisas não estavam bem", explica, no meio do movimento intenso na terminal rodoviário da Junta, arredores de Maputo, onde se acumulam passageiros, moçambicanos e malauianos.

Todos estão em fuga dos ataques e xenofobia na África do Sul, carregados de bagagens e incerteza, enquanto aguardam por um transporte que os leve para casa.

O transportador relata que, durante a última viagem, foram alvo de ameaças de grupos xenófobos, mas a urgência de retirar o maior número possível de moçambicanos e malauianos falou mais alto, levando-os a prosseguir. Descreve que terá sido a sua última viagem de resgate, concluída antes de 30 de junho, data limite imposta por estes grupos anti-imigração sul-africanos para a saída dos estrangeiros, africanos, do país.

"Tínhamos de ir até lá porque os nossos compatriotas são muitos e esses nossos vizinhos malauianos estavam super cheios do outro lado", diz, admitindo que o receio o acompanhava ao longo do percurso, pela possibilidade de ser interpelado por esses grupos violentos, num contexto em que pelo menos nove moçambicanos perderam a vida.

Para João Zandamela, os próximos dias são de incerteza, à medida que a África do Sul - a única rota em que trabalha - se esvazia rapidamente, deixando a certeza da aproximação de uma crise sem precedentes.

"Saímos daqui vazios para Durban, Durban para Maputo, com passageiros. Daqui em diante, há-de haver crise", lamenta, admitindo, ainda assim, que não vai abandonar a rota, enquanto der.

Também Armindo Machavane, que opera desde 2016 na rota entre a província de Gaza, sul de Moçambique, e Pretória, prevê que o negócio se torne cada vez mais difícil nos próximos dias.

"Não tem clientes que vão para a África do Sul agora, só tem aqueles que estão a abandonar", conta, apontando como principal causa o ultimato lançado por manifestantes anti-imigração na África do Sul para a saída de estrangeiros.

Acabado de regressar da África do Sul, e enquanto os passageiros rapidamente tentam descer da viatura, o transportador relata que, apesar do atual pico de saídas "muito bom", a rota deverá enfrentar uma quebra na procura nos próximos dias.

"Daqui a nada não teremos trabalho, porque já não tem ninguém lá na África do Sul", lamenta Machavane.

Na terminal da Junta, passageiros e bagagens amontoam-se, disputando espaço com o movimento constante de viaturas, entre as quais algumas, as últimas, vindas da África do Sul, incluindo carros particulares mobilizados para trazer compatriotas, aumentando a pressão sobre quem procura lugar nas viagens seguintes rumo às províncias, mais a norte de Maputo.

Entre essas viaturas particulares está a de Pedro Massango, que desde 2008 assegura o transporte de passageiros entre Maputo e a cidade de Stanger, na África do Sul, num trajeto regular de ida e volta.

"Em Stanger não tem grande problema, o grande problema está na cidade de Durban", relata Massango, já de saída do terminal rodoviário para mais uma viagem, acrescentando que, apesar da insegurança, terá de voltar porque "as pessoas estão mal lá".

Segundo o transportador, algumas pessoas vivem agora escondidas no mato, em condições precárias, tentando escapar à violência e à insegurança: "Mesmo agora, estou a receber muitas chamadas de pessoas que estão no mato (...), precisam de ajuda".

Se para os transportadores que fazem a rota entre África do Sul e Moçambique o movimento representa uma corrida para retirar compatriotas, para quem assegura o transporte interno o impacto faz-se sentir na redistribuição desse fluxo pelo país.

É o caso de Sérgio Kivi, que opera na rota Maputo-Gaza, e que tem registado um aumento do número de passageiros provenientes da África do Sul, refletindo a chegada de migrantes em regresso do país vizinho.

Ainda assim, o motorista evita encarar o fenómeno como positivo, sublinhando que o aumento resulta de dificuldades enfrentadas pelos passageiros. "Não é para tanto dizer que fico feliz por isso".

Acrescenta que esse aumento do fluxo intensificou-se há pouco mais de uma semana, não escondendo agora a preocupação com a sustentabilidade da atividade daqui para a frente.

Kivi diz que o momento exige cautela, já que o fluxo poderá diminuir rapidamente assim que cessarem os regressos, deixando o setor novamente com pouca procura e sem alternativas claras.

Oficialmente, deixaram a África do Sul, retirados pelas autoridades nas últimas semanas, menos de mil moçambicanos.

Pelo menos 283 moçambicanos foram agredidos, viram as suas casas incendiadas e bens vandalizados na última vaga de ataques xenófobos na vizinha África do Sul, avançou na quarta-feira o Governo de Moçambique, que tenta assegurar assistência e o repatriamento.

O Governo moçambicano admitiu recentemente desafios relativos ao repatriamento e reintegração de cidadãos nacionais vítimas de xenofobia na vizinha África do Sul, quando nove moçambicanos já foram mortos e 738 repatriados devido aos ataques.

As tensões xenófobas são um problema recorrente na África do Sul. Inúmeras comunidades de imigrantes foram repatriadas pelos próprios países, como Moçambique ou a Nigéria, e a África do Sul foi alvo de críticas internacionais por xenofobia.

Moçambique tem cerca de 300.000 cidadãos residentes na África do Sul. A Presidência indicou, em comunicado, que "milhares" já regressaram ao país face à violência.

*** Lina Cebola (texto e fotos), Fernando Cumaio (vídeo), da agência Lusa ***