© Lusa 26/10/2026
Uma comissão independente de inquérito declarou como crimes de guerra e contra a humanidade os contínuos ataques da Rússia contra a infraestrutura energética da Ucrânia, num relatório que vai ser apresentado hoje à ONU.
Os ataques "foram realizados de forma deliberada e no âmbito de uma política estatal [russa] destinada a privar a população civil de eletricidade e outros serviços essenciais, bem como a causar-lhe sofrimento", concluiu a comissão.
A equipa internacional de três peritos denunciou que todos os que ordenaram os ataques estavam conscientes do sofrimento que iriam causar à população da Ucrânia, que enfrenta uma invasão russa desde fevereiro de 2022.
A comissão referiu em particular a destruição intencional de instalações de aquecimento em grandes centros urbanos que são indispensáveis para a população civil durante invernos duros como o passado, com temperaturas inferiores a 20 graus negativos.
Os crimes de lesa-humanidade, ou contra a humanidade, são considerados delitos que façam parte de um ataque generalizado ou sistemático contra civis para lhes causar sofrimento coletivo.
Para elaborar o relatório, os peritos nomeados pela ONU analisaram testemunhos de 255 pessoas que enfrentaram o inverno em condições difíceis em nove regiões da Ucrânia, incluindo Kiev, Kharkiv, Odessa e Kherson.
O relatório da comissão independente internacional vai ser apresentado hoje perante a Assembleia-Geral das Nações Unidas.
Os peritos disseram também que a frequência, intensidade e extensão geográfica das vagas sistemáticas de ataques, nas quais os russos empregam centenas de drones e mísseis em cada ocasião, aumentaram com os anos.
"Quando se aproximam os meses mais frios, os ataques intensificam-se, apresentando uma preocupante ameaça para a vida e a saúde da população civil", disse o presidente da comissão, o juiz norueguês Erik Mose, citado pela agência espanhola EFE.
A comissão concluiu que entre as principais vítimas da estratégia de guerra da Rússia estão os grupos mais vulneráveis, desde pessoas idosas e com mobilidade reduzida a crianças.
A falta de energia na Ucrânia devido aos ataques russos obrigou muitas escolas a permanecerem fechadas ou deixou sem aquecimento muitas famílias.
A comissão analisou igualmente a questão dos estrangeiros que combatem nas forças armadas russas e reuniu provas de que redes de tráfico de seres humanos já recrutaram indivíduos de 29 países mediante enganos e coação.
Agentes ou agências que operam em diferentes países contactam as pessoas com ofertas de trabalho e tratam dos vistos e da documentação para entrar na Rússia.
Uma vez em território russo, as vítimas são obrigadas a assinar contratos em russo, língua que algumas não conhecem, com o Ministério da Defesa.
Muitos dos recrutas são enviados para a frente ucraniana, onde lhes são atribuídas tarefas perigosas.
"Muitos morreram, desapareceram ou foram capturados pelas forças ucranianas", denunciou a comissão no relatório divulgado em Genebra, Suíça.
A Rússia invadiu a Ucrânia para "desmilitarizar e desnazificar" o país vizinho, como anunciou então o Presidente russo, Vladimir Putin.
A invasão desencadeou um conflito armado que tem sido considerado como o mais mortífero na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), embora se desconheça o número exato de vítimas, tanto militares como civis.
A Rússia já tinha invadido a Ucrânia em 2014, quando anexou a península da Crimeia.
A Ucrânia foi uma república da União Soviética desde a fundação do bloco comunista controlado por Moscovo, em 1922, até à sua dissolução em 1991.

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