Lisboa, 23 ago 2026 (Lusa) – O responsável pela área de consultoria de tecnologia da KPMG Portugal considera, em entrevista à Lusa, que será difícil colocar um travão na IA, defendendo a necessidade de encontrar uma solução de compromisso entre gestão do risco e dependência.
Várias têm sido as vozes a apelar para abrandar o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial (IA), desde o Papa, passando pela norte-americana Anthropic, como pelo presidente executivo (CEO) do Machine Intelligence Research Institute (MIRI), Malo Bourgon, que em entrevista recente à Lusa considerou que é possível abrandar esta tecnologia com intervenção dos governos.
Para Rui Gonçalves, responsável pela área de consultoria de tecnologia (head of technology consulting) da KPMG Portugal, que integra ainda o ‘global AI council’ [conselho global de IA] do grupo, considera que travar a inteligência artificial é algo que é difícil de fazer.
“Travar a IA, meter um botão de pausa (…), não sei se isso é possível porque os centros de decisão sobre isso estarão de tal maneira espalhados (…) pelo mundo e nenhum deles, com certeza, está em Portugal”, refere.
Os centros de decisão dos modelos de IA estão em São Francisco, Seattle (Estados Unidos) ou em Yangzhou, China, aponta.
“E nem na Europa estarão”, pelo que “acho que o tema deve ser mais se a escolha real é acelerar ou travar um pouco o ritmo e decidir a que ritmo é que se regula e que se cria aqui mais mecanismos de gestão do risco sem travar a capacidade de construir”, prossegue o responsável.
A questão é “como é que nós poderemos acelerar ou desacelerar esse tema, colocando mais regulação ou gerindo o risco de forma mais eficiente sem estrangular a capacidade de construir”, sugere, apontando que na Europa não há capacidade para travar a IA e, muito menos, em Portugal.
Só para se ter uma ideia, a Europa “importa mais de 80% das nossas tecnologias digitais”, de acordo com um estudo recente.
Além disso, “70% dos modelos fundacionais saem dos Estados Unidos”, depois, dos 30% que restam, “25% a 29% sairão da China e 1% sairá da Europa”, ilustra Rui Gonçalves.
Além disso, colocar “travões de forma desregulada vai-nos só aumentar a dependência a prazo”, adverte o responsável da KPMG Portugal.
Isto porque a existir um travão, haverá quem não cumpra essa medida, criando uma maior assimetria no desenvolvimento da tecnologia.
“Daí o tema que se coloca (…) é tentar encontrar aqui uma solução de compromisso entre a gestão do risco e a gestão da dependência de outros países”, conclui Rui Gonçalves.

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