No palco montado junto ao Rotes Rathaus, Andre, membro da associação Deutsche Wohnen & Co Enteignen, resume num receio em alta voz aquilo que, diz, sentem muitos inquilinos: "Temos medo quando vamos ao correio e abrimos uma carta do senhorio".
Pessoas de várias idades e provenientes de diferentes zonas da cidade concentram-se para exigir rendas mais baixas e mais habitação acessível. Muitos chegaram de bicicleta.
A manifestação é organizada pelo Bündnis gegen Verdrängung und Mietenwahnsinn (Aliança contra a Expulsão e a Loucura das Rendas) e acontece duas semanas antes das eleições regionais de Berlim, marcadas para 20 de setembro.
A CDU e a SPD, que atualmente governam Berlim, apresentam propostas centradas na construção de novas habitações e no combate às rendas excessivas. A Esquerda (Die Linke) coloca o fim do poder das grandes empresas imobiliárias entre as suas principais reivindicações.
Entre os manifestantes está Alessandro, que conta ter visto a sua renda aumentar várias vezes nos últimos dois anos.
"É impossível continuar a suportar estes aumentos. Berlim já não é para quem cá vive, é para os grandes investidores, capitalistas, não para as pessoas", confessou à Lusa.
Nas eleições regionais de 20 de setembro, diz que vai votar Die Linke, por considerar que é o partido "mais preocupado" com a questão da habitação.
As sondagens mais recentes mostram os conservadores da CDU e a Esquerda empatados ou praticamente empatados, com cerca de 20% das intenções de voto, seguidos pelo partido de direita radical, Alternativa para a Alemanha (AfD), com cerca de 18%, e pelos Verdes, entre 15% e 18%. O Partido Social Democrata alemão (SPD) surge mais atrás, entre 11% e 15%, enquanto o BSW e o FDP permanecem abaixo da barreira dos 5%.
Há música, carros alegóricos e bandeiras de diferentes organizações. Alguns partidos políticos também aproveitam a oportunidade para apelar ao voto. O Sozialistische Gleichheitspartei (SGP), partido socialista de orientação trotskista, entrega panfletos de várias páginas a explicar o programa.
"Enteigner enteignen" — "Expropriar os expropriadores" — lê-se num grande cartaz junto ao palco. Outros resumem algumas das principais reivindicações do protesto: "Mieten ohne Angst" ("Rendas sem medo"), "Unsere Stadt, unsere Wahl" ("A nossa cidade, a nossa escolha") e "Wohnen ist Menschenrecht" ("A habitação é um direito humano").
Para Kim Meyer, do Bündnis gegen Verdrängung und Mietenwahnsinn, a habitação é "o tema decisivo" das eleições em Berlim.
"Queremos um Governo que nos proteja enquanto inquilinos e nos garanta uma casa segura", revelou, em declarações à Lusa.
O movimento espera a implementação do resultado do referendo de 2021 sobre a socialização de grandes empresas imobiliárias e defende a introdução de um teto às rendas, começando pelas empresas imobiliárias públicas de Berlim e, posteriormente, a nível nacional.
"Mas só fazer cumprir a legislação de arrendamento que já existe e garantir segurança jurídica aos inquilinos já seria uma grande ajuda", acrescentou.
Segundo Meyer, o objetivo passa sobretudo por representar os interesses dos cerca de 85% dos berlinenses que vivem em casas arrendadas, e não os das empresas imobiliárias privadas que, acusa, fazem subir as rendas.
A questão da habitação é uma das principais preocupações da campanha para as eleições de setembro. O Berliner Mieterverein, uma das maiores organizações de defesa dos inquilinos da cidade, tem apelado a medidas para garantir rendas acessíveis e reforçar a proteção dos inquilinos.
A organização tinha registado 20 mil participantes, mas revelou mais tarde que o número não terá ultrapassado as 11 mil pessoas. A manifestação, acrescentaram, pretende ser também uma mensagem aos partidos que disputarão o futuro Governo da cidade. "Her mit den Wohnungen! Runter mit den Mieten!" — "Queremos as casas! Baixem as rendas!".
E, no meio da música, dos carros alegóricos e das bandeiras, o astronauta continua a circular entre os manifestantes, lembrando com humor aquilo que para muitos deixou de ter graça: o preço de viver em Berlim.
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