sábado, 8 de agosto de 2026

A Ucrânia levou a guerra aos armazéns de Tatyana, a mulher mais rica da Rússia

Por cnnportugal.iol.pt  08/08/2026

Pelo menos 23 instalações da maior plataforma russa de comércio eletrónico foram atacadas desde meados de julho e nove trabalhadores morreram. Kiev diz que a empresa ajuda a abastecer militares russos, enquanto Tatyana Kim acusa a Ucrânia de tentar espalhar "pânico e choque" entre a população

Tatyana Kim passou mais de duas décadas a construir a Wildberries até a transformar numa espécie de Amazon russa — e numa das empresas mais presentes na vida quotidiana do país. 

Agora vê essa rede ser atingida quase noite após noite por ataques ucranianos. Desde meados de julho, pelo menos 23 instalações da empresa foram alvo de bombardeamentos e nove trabalhadores morreram, numa campanha que surgiu depois de meses em que a Ucrânia concentrou parte dos ataques em refinarias russas e que, segundo o New York Times, marca uma mudança importante: é a primeira vez que Kiev dirige de forma tão sistemática os ataques contra uma única empresa privada russa. 

O objetivo declarado das autoridades ucranianas é fazer com que a guerra se faça sentir cada vez mais dentro da Rússia e aumentar a pressão sobre Vladimir Putin para terminar o conflito.

A Wildberries não é uma empresa qualquer no país. Representa cerca de 10% das vendas a retalho na Rússia, tem quase 95 mil pontos de recolha e mais de metade da população compra através da plataforma pelo menos uma vez por mês. 

Tatyana Kim, que começou por ser professora de inglês, lançou o negócio em 2004 com o então marido, Vladislav Bakalchuk, vendendo pela internet roupa retirada de catálogos europeus, e a empresa cresceu ainda mais depois da invasão russa da Ucrânia, quando várias marcas ocidentais abandonaram o mercado. Pelo caminho, Tatyana Kim atravessou uma fusão empresarial que terá sido mediada pelo Kremlin e uma guerra aberta com o marido, que acusou a operação de ser uma tomada hostil da empresa e chegou a aparecer nos escritórios da Wildberries acompanhado por homens armados chechenos. 

O confronto terminou num tiroteio que matou duas pessoas e feriu sete. 

O casal divorciou-se no ano seguinte e Tatyana Kim ficou à frente de um império que agora enfrenta um problema que não se resolve numa sala de reuniões.

A Ucrânia justifica os ataques dizendo que a Wildberries vende produtos utilizados por soldados russos e, por isso, deve ser tratada como um alvo legítimo. Tatyana Kim rejeita essa leitura e insiste que a plataforma comercializa o mesmo tipo de artigos que gigantes como a Amazon ou a chinesa Alibaba. 

"Não há lógica, bom senso ou racionalidade nas ações dos terroristas", afirmou num vídeo divulgado no final de julho, referindo-se aos ucranianos, antes de acusar o "inimigo" de tentar "pressionar, desestabilizar e provocar pânico e choque entre um grande número de pessoas". 

A discussão sobre o que é vendido na Wildberries tornou-se, por isso, parte da própria guerra e ganhou outra dimensão quando o New York Times encontrou na plataforma anúncios de material que também pode ter utilização militar — como drones FPV, bobinas de fibra ótica e até um e até um anúncio, entretanto esgotado, de um aparelho equipado com um sistema para largar explosivos.

Entretanto, os ataques já começaram a medir-se em armazéns e mercadoria perdida. Segundo a consultora Data Insight, citada pelo New York Times, a Wildberries poderá ter perdido até um terço de todo o seu espaço de armazenamento e bens avaliados em cerca de 5,2 mil milhões de euros. "Quase ficou sem os seus maiores armazéns", resumiu Sergei Semko, analista da consultora, acrescentando que "todos os dias, um armazém depois de outro está a ser metodicamente destruído". 

O impacto começa também a chegar ao consumo, com os gastos dos russos em produtos não alimentares vendidos nestas plataformas a caírem nas últimas semanas, enquanto alguns vendedores começam a transferir os negócios para a Ozon, a segunda maior empresa russa de comércio eletrónico — que não tem sido alvo da mesma campanha de ataques.

Tatyana Kim está agora a tentar fazer rapidamente aquilo que os ataques lhe impõem: espalhar a operação por mais locais para que a destruição de um grande armazém não paralise uma parte tão grande da rede. A Wildberries está a reorganizar a logística, já fez duas rondas de pagamentos voluntários a mais de 80 mil pequenos e médios vendedores, enquanto o Governo russo prepara medidas de apoio que deverão incluir benefícios fiscais. 

A Wildberries mantém nas suas regras que é proibido vender armas — e Tatyana Kim fala em "ataques contra pessoas pacíficas".

Na secção de perguntas do anúncio ao aparelho capaz de largar explosivos, alguns compradores mostravam preocupação com a legalidade e outros identificavam a unidade militar russa para a qual pretendiam adquirir drones. Um deles perguntou diretamente se o aparelho podia ser usado na "operação militar especial", a expressão utilizada pelo Kremlin para designar a invasão da Ucrânia.

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