Por Cnnportugal.iol.pt 15/08/2026
Pense no empresário bem-sucedido e viajado que faz questão de dizer que mede mais de 1,80 metros e ganha mais de seis dígitos por ano. Ou no CEO que procura uma musa bonita para partilhar "aventuras internacionais" e um "estilo de vida sofisticado". Depois há o tipo que surge ao volante de um descapotável azul e garante ser "menos idiota do que parece".
Percorra perfis em aplicações de encontros e encontrará repetidamente publicações que destacam três qualidades específicas: "aparência, dinheiro e estatuto" - ou LMS (looks, money and status), para quem está familiarizado com o jargão dos encontros modernos.
É verdade que destacar estas qualidades pode levar mais pessoas a deslizar o dedo para a direita. Mas, se procura um amor duradouro, este mesmo trio pode acabar por deixá-lo sozinho.
A aparência física, a estabilidade financeira e o estatuto social podem impressionar numa primeira fase, despertando atração e interesse sexual. No entanto, a longo prazo, os estudos mostram que tendem a criar distância, em vez de proximidade, e podem dificultar a criação de uma ligação genuína.
Muitos norte-americanos acreditam que, se fossem mais ricos, mais bem-sucedidos ou mais bonitos, sentir-se-iam mais amados, explicam a especialista em felicidade Sonja Lyubomirsky e o investigador na área das relações Harry Reis.
Mas a ciência conta uma história diferente.
Em vez de tentar impressionar os outros, procure dar-se a conhecer, defendem os autores do livro, How To Feel Loved: The Five Mindsets That Get You More of What Matters Most. Lyubomirsky, professora catedrática de Psicologia na Universidade da Califórnia, em Riverside, e Reis, professor de Psicologia na Universidade de Rochester, em Nova Iorque, apresentam estratégias baseadas em evidência científica para criar laços afetivos significativos - relações de qualidade que, segundo os estudos, influenciam tanto a saúde física como a mental.
Tão essencial como a comida e a água
Muito mais do que algo simplesmente desejável, sentir uma ligação afetiva é uma necessidade fundamental para o bem-estar.
Isto porque os seres humanos são uma espécie social. O nosso cérebro, enquanto mamíferos, interpreta a falta de amor como uma ameaça à sobrevivência. Como a necessidade de nos sentirmos amados está profundamente enraizada nas regiões mais antigas do cérebro, Lyubomirsky e Reis defendem, no livro, que "os seres humanos não teriam sobrevivido enquanto espécie sem se sentirem amados".
Décadas de investigação que demonstram o papel crucial das ligações sociais na saúde física e mental reforçam esta ideia. E a influência que as relações românticas e platónicas exercem ao longo da vida, aliada ao atual declínio da saúde social, é motivo de preocupação.
O custo da falta de ligação aos outros
"As ligações aos outros são tão essenciais como a comida e a água", escreve Kasley Killam no livro The Art and Science of Connection: Why Social Health Is the Missing Key to Living Longer, Healthier, and Happier.
"Nos últimos 30 anos, a percentagem de norte-americanos com 10 ou mais amigos próximos diminuiu 20%", explica a autora. Ainda assim, muitos gostariam de ter relações mais próximas.
Embora mais de 75% dos participantes no American Friendship Project de 2024 tenham dito estar satisfeitos com o número de amigos que têm, mais de 40% afirmaram que gostariam de se sentir mais próximos deles.
Segundo Killam, sentir falta de ligações significativas aos outros é um risco sério. Aumenta a probabilidade de sofrer um AVC, de desenvolver demência e de morrer prematuramente.
Os mitos que nos impedem de nos sentirmos amados
Se há tanto em jogo - e os benefícios são tão grandes - porque é que continuamos a ter dificuldade em criar e manter relações em que nos sentimos verdadeiramente amados?
Porque continuamos presos a ideias erradas sobre aquilo que realmente nos fará sentir amados, respondem Lyubomirsky e Reis.
Os autores identificam cinco mitos que dificultam essa sensação de ser amado:
🚫 Se eu fosse mais atraente, mais poderoso ou mais bem-sucedido
🚫 Se conseguisse garantir que os outros conheciam as minhas qualidades e conquistas.
🚫 Se conseguisse esconder os meus defeitos.
🚫 Se o meu parceiro falasse a minha linguagem do amor.
🚫 Se conseguisse fazer com que o meu parceiro me amasse mais.
A investigação mostra que sentir-se amado não depende de mudarmos quem somos nem de mudar os outros. Depende, antes, de mudarmos a forma como comunicamos.
O poder de uma conversa sincera
Para dar e receber mais amor, Lyubomirsky e Reis sugerem que mude a forma como comunica, recorrendo a estratégias como estas:
Ouça para compreender. Na próxima conversa, em vez de estar apenas à espera da sua vez para responder, silencie o diálogo interior e ouça com um único objetivo: compreender quem tem à sua frente. Pergunte a si próprio: "Como será estar no lugar dessa pessoa neste momento?"
Experimente: ouça sem interromper. Acene com a cabeça, reflita sobre o que ouviu, faça uma pergunta para aprofundar a conversa e evite dar conselhos, a menos que lhos peçam. Mostre apenas à outra pessoa que ela é importante.
Demonstre curiosidade genuína fazendo melhores perguntas. Vá além do habitual "Como correu o teu dia?" e incentive a outra pessoa a abrir-se com perguntas como: "O que aconteceu esta semana que te pôs a pensar?" ou "Qual é a ideia errada que as pessoas costumam ter sobre ti?"
Experimente: faça uma pergunta que nunca tenha feito antes. Por exemplo: "Sobre o que mudaste de opinião?" Depois, ouça a resposta.
Partilhe aspetos importantes sobre si, mas faça-o aos poucos. Não precisa de revelar logo os seus segredos mais profundos. Comece por pequenas partilhas.
Experimente: em vez de responder "Estou bem", diga algo mais genuíno, como: "Estou um bocadinho nervoso com a apresentação de amanhã" ou "Hoje estou a passar um dia difícil."
Demonstre afeto e gentileza. Mostre que se preocupa com o bem-estar da outra pessoa através de um sorriso sincero, um tom de voz caloroso, uma mensagem para saber como está ou um gesto atencioso.
Experimente: faça um elogio sincero que normalmente guardaria para si. Pequenos gestos de gentileza, capazes de revelar o carinho que sente, podem fazer toda a diferença.
Mostre empatia, sem julgar. Abra espaço para a empatia, substituindo os rótulos pela curiosidade. Em vez de pensar "É egoísta", pergunte a si próprio: "Que peso estará esta pessoa a carregar neste momento que possa explicar este comportamento?"
Experimente: olhe para a situação com alguma distância. Em vez de definir alguém por um momento menos bom, procure perceber o contexto. A pessoa pode estar cansada, sob pressão, de luto ou assustada. Por outras palavras, pode simplesmente estar a ser humana. Parta do princípio de que talvez não conheça toda a história.
Estas estratégias também resultam em relações de longa duração. Muitas vezes acreditamos que conhecemos o nosso parceiro de uma ponta à outra, mas essa falsa convicção pode levar-nos a deixar de fazer perguntas que ajudam a fortalecer a ligação entre duas pessoas. Lembre-se de que nunca conhece verdadeiramente tudo sobre o outro e faça perguntas cujas respostas o possam surpreender.
O problema não é revelar demasiado, mas revelar de menos
Outra ideia errada que dificulta a sensação de nos sentirmos amados é acreditar que fazer perguntas pode parecer intrometido. Na realidade, quando as perguntas são feitas com respeito e por genuína curiosidade, a maioria das pessoas aprecia a oportunidade de falar sobre si.
Embora a maioria de nós se preocupe em revelar informação a mais (TMI, too much information), a investigação mostra que o verdadeiro problema está, muitas vezes, em revelar informação a menos (TLI, too little information).
Partilhar aspetos da nossa vida é uma das ferramentas mais subestimadas para criar confiança, fortalecer as relações e ganhar influência, defende Leslie John, especialista em ciência da decisão, no livro Revealing: The Underrated Power of Oversharing. Para a autora, abrir-se aos outros é um investimento - "um risco ao serviço da confiança". Mostrar vulnerabilidade é "uma das formas mais antigas e mais profundamente humanas de criar ligações", escreve John.
Quer na vida pessoal, quer na profissional, e mesmo quando possa parecer um risco, revelar mais sobre si pode ser uma poderosa ferramenta para criar e fortalecer relações. Pode até ajudar-nos a recuperar "emocional, mental e fisicamente", explica John, citando estudos que mostram que esta partilha pode reforçar o sistema imunitário, reduzir a depressão e até acelerar a recuperação.
Pense em diálogo, não em monólogo
Se partilhar experiências ajuda tanto a aproximar as pessoas, porque é que tantas vezes sentimos vontade de fugir quando alguém monopoliza a conversa e fala incessantemente sobre si? A resposta é simples: quando a partilha acontece apenas de um lado, perde-se a reciprocidade que ajuda as pessoas a sentirem-se mais próximas.
Partilhar de forma a fortalecer a ligação aos outros nem sempre é fácil, sublinham Lyubomirsky e Reis. Para resultar, é preciso que exista sintonia entre as duas pessoas, de forma que "a interação decorra naturalmente, aprofundando a ligação entre ambas à medida que avançam em conjunto".
Mesmo que, pelo caminho, haja alguns tropeções e mal-entendidos - inevitáveis quando tentamos comunicar desta forma - criar relações profundas é demasiado importante para desistirmos de tentar.
Tornar-se um ouvinte atento e encorajador transmite à outra pessoa que a vê como um ser humano e que se preocupa genuinamente com o seu bem-estar. Demonstrar amor através deste tipo de atenção ajuda a reforçar a confiança, o sentimento de valor e até a autoestima. É este o tipo de amor que tem mais probabilidades de ser retribuído.
Não admira que haja quem diga que as três palavras mais irresistíveis da língua inglesa são: "Conta-me mais".
À procura de mais amor? Faça este questionário, desenvolvido por Lyubomirsky para os leitores de How To Feel Loved, e descubra quais as atitudes que, no seu caso, tornam mais fácil - ou mais difícil - sentir-se amado.



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