terça-feira, 8 de setembro de 2026

GUINÉ-BISSAU: Mais partidos e jornalismo instrumentalizado preocupam na Guiné-Bissau... O bastonário da Ordem dos Jornalistas guineenses defendeu hoje que a proliferação de formações políticas "sem matrizes clássicas" e a crescente instrumentalização do jornalismo estão a comprometer a estabilidade institucional e democrática na Guiné-Bissau.

© Lusa    08/09/2026 

A posição de António Nhaga foi publicada pelo jornal online Capital News, órgão consultado pela Lusa nas redes sociais.

Para o também editor-chefe do jornal "O Democrata", o cenário político guineense "tem assistido, desde 2018, ao surgimento contínuo de pequenos grupos" que se "autodenominam partidos políticos, mas que, na prática, divergem dos modelos clássicos de representação".

Para António Nhaga, tirando os partidos históricos e tradicionais guineenses, nomeadamente, o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), a RGB (Resistência da Guiné-Bissau), o PRS (Partido da Renovação Social) e a UM (União para a Mudança), todas as formações políticas criadas no país "não são partidos".

As declarações surgiram no âmbito de uma análise do jornalista sobre a situação política guineense, com base nas indicações de que estará em curso a criação do Partido Popular Guineense (PPG), que tem sido atribuído ao atual primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té.

Nos últimos dias, dirigentes de várias formações políticas têm apresentado renúncias aos seus partidos, alegadamente para se juntarem ao PPG, ainda não anunciado formalmente.

"Estas novas formações funcionam frequentemente como estruturas de interesses particulares, propensas às alianças a facções militares para promover a instabilidade e fomentar golpes de Estado, uma tendência na qual se enquadra o recente debate em torno do autoproclamado Partido Popular Guineense", assinalou António Nhaga.

O analista sublinhou que a fragmentação política na Guiné-Bissau tem gerado reflexos diretos na coesão dos próprios partidos tradicionais, citando os casos do PRS, que, disse, enfrenta divisões internas refletidas em três a quatro facções, enquanto o PAIGC lida com pressões e ameaças de cisão fomentadas externamente.

"Tudo isso acontece num contexto onde está na moda assaltar o Estado e assumir o poder", frisou Nhaga, para quem a crise de governação e o enfraquecimento institucional arrastaram igualmente o setor da imprensa guineense.

O cenário, disse o bastonário da Ordem dos Jornalistas, acaba por gerar um fenómeno em que profissionais da comunicação social, ou indivíduos que exercem a atividade, assumem o papel de "bocas de aluguer", limitando-se a defender agendas de pequenos grupos políticos.

"O ambiente informativo guineense caracteriza-se por uma crescente polarização onde o contraditório é penalizado ao ponto de quem procura escrutinar e apresentar contrapontos à narrativa dos detentores do poder é rotulado de imediato como militante do PAIGC ou de outras forças da oposição", salientou.

Na opinião de Nhaga, a anulação prática do contraditório jornalístico independente "é uma estratégia intencional que alimenta a atual balbúrdia política" no país.

Diante deste cenário de "erosão democrática", o jornalista considera ser urgente que se crie uma frente unida entre os profissionais da comunicação social na Guiné-Bissau.

O resgate da imprensa enquanto "quarto poder" independente, pautado pela solidariedade mútua entre jornalistas, é para Antonio Ngaga "um pré-requisito fundamental para devolver o país aos eixos" da legalidade democrática e restabelecer o contraditório na esfera pública.

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