segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ALGÉS: Jovem pediu ajuda antes de matar mãe e Estado ignorou: "Ninguém fez nada"... O jovem que matou a mãe em Algés fez vários pedidos de ajuda às autoridades, mas o Estado ignorou todas as denúncias e sinais de violência. A situação culminou em tragédia, levantando questões sobre a proteção de menores e o funcionamento da Justiça.

© Shutterstock  Por  noticiasaominuto.com  17/08/2026 

O jovem de 15 anos que matou a mãe em Algés, na semana passada, fez diversos pedidos de ajuda às autoridades portuguesas. Acreditava que estava melhor - assim como a irmã de 4 anos - longe da progenitora. Institucionalizado, tal era o desespero.

Em dois anos, foram diversos os episódios violentos, as chamadas para as autoridades, as ocorrências que envolvem o casal e os dois filhos. Mas nenhuma foi suficiente para por fim à violência enraizada no seio desta família.

Hoje, o Correio da Manhã revela mais um dado dramático. Cerca de 15 dias antes do homicídio, o adolescente dirigiu-se a um posto policial e tentou apresentar queixa contra a mãe. Mostrou vídeos, imagens da violência que ocorria entre quatro paredes, mas a queixa foi rejeitada. Tinha de estar acompanhado por um adulto, por ser menor. E mandaram ligar depois, durante a hora de expediente.

Como é possível ouvir no áudio divulgado pelo matutino, gravado, alegadamente no final de julho, perante a impossibilidade de apresentar queixa e falta de respostas às suas denúncias, o jovem lamenta: "Os vídeos que eu tenho são de ameaças de morte. E, até agora, ninguém fez nada".

O agente que o atende rebate: "Mas lá está, é o que os meus colegas disseram. O Ministério Público (MP) já teve acesso a esses vídeos. O que o senhor pode fazer é ligar amanhã entre as 9h30 e as 17h, mais coisa menos coisa [...]. 17h não, 17h já é muito tarde. Até às 16h, 15h30".

Acrescenta o Correio da Manhã que, além deste contacto, dias antes do crime, no dia 5 de agosto, o menor foi ouvido, em conjunto com a mãe, Gabriela Barbosa, de 32 anos, pela assistente social. Nesse encontro foi-lhe assegurado que ia ser institucionalizado. Mas até ao dia do homicídio, nada aconteceu.

Tanto o jovem como a irmã mantiveram-se na companhia da progenitora até à madrugada de quarta-feira, 12 de agosto, dia em que, com um 'mata-leão' - golpe de estrangulamento e imobilização usado em artes marciais - a matou.

Foi o próprio adolescente quem, já na quinta-feira, várias horas depois do homicídio, ligou às autoridades a dar conta do sucedido.

Disse à polícia que o fez para proteger a irmã, mas terá ficado em silêncio quando foi ouvido no Tribunal de Menores. O juiz determinou que ficaria em internamento em regime fechado durante os próximos três meses, uma medida que será reavaliada dentro de dois meses.

"Não faz sentido haver tantos avisos e o Tribunal não ter reação"

Ao Notícias ao Minuto, na semana passada, o presidente da CPCJ de Oeiras, Rui Esteves explicou que tanto o jovem que matou a mãe como a irmã, hoje com 4 anos, estiveram sinalizados pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Oeiras entre 2024 e 2025. E que, em junho do ano passado, pediram ao Tribunal de Família e Menores de Cascais uma medida de proteção urgente para os menores. Encontrando-se a família, "desde essa data a ser acompanhada judicialmente".

Entretanto, o Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste confirmou também que corria desde 2025 um processo de promoção e proteção relativo às crianças. Em janeiro de 2026 foi celebrado um acordo de promoção e proteção, com a aplicação de uma medida de apoio junto da mãe. Mas, concretamente, como é que a família estava a ser acompanhada, não se sabe.

À Rádio Renascença, o bastonário da Ordem dos Advogados deixou duras críticas à Justiça na atuação do caso. Para João Massano "não faz sentido haver tantos avisos e o Tribunal [de Menores de Cascais] não ter reação".

Agora, é necessário perceber "quem é que recebeu os vídeos, porque é que não atuou, e se havia alguma razão para não o fazer".

O bastonário alertou ainda para o facto de, neste momento, "não termos o conhecimento total das coisas" e ser preciso conhecer "as razões pelas quais nada foi feito", antes de julgar alguém ou alguma instituição.

Se por acaso, no final, se concluir que "a falha é efetivamente de alguém da CPCJ ou do próprio tribunal, obviamente que tem de haver consequências".

"Objetivamente, um tribunal estar tanto tempo sem ter uma reação quando a situação é explosiva - quando temos alguém que está preso por violência doméstica e por violação, um jovem que avisa que a irmã e ele estão a ser vítima de violência doméstica também - é claro que o tribunal deveria reagir mais depressa, teria de reagir mais depressa", evidenciou ainda.

Perante isso, João Massano pede que se explique "exatamente o que é que aconteceu", que é, no fundo, "ouvir a versão da CPCJ e do Tribunal para não ter havido essa atuação".

"E se a justificação for, pura e simplesmente, excesso de trabalho, incapacidade, etc., diria que não é isso que pode justificar uma situação destas", defendeu, lamentando "falta de investimento na justiça de há muitos anos".

Vídeos mostram espiral de violência

Entretanto, na noite de domingo, a CNN Portugal, divulgou uma série de vídeos que mostram que a violência fazia parte do quotidiano da família.

Nas imagens partilhadas pelo canal de televisão vê-se Gabriela Barbosa inconsciente, deitada no chão, alegadamente, depois de o filho, que agora a matou, lhe ter feito um 'mata-leão'. Ao lado da mãe está a filha de 4 anos, a chorar compulsivamente. Noutro vídeo, vê-se Gabriela a agredir a menina.

Mas a espiral de violência no seio desta família, de nacionalidade brasileira, não vem de agora. Segundo o canal de televisão, começou quando Gabriela e o marido e pai dos menores, José, eram ainda adolescentes.

A mudança para Portugal, há dois anos, tornou a situação ainda pior. As constantes agressões e o facto de ser a única a "sustentar a casa", levaram Gabriela a querer acabar a relação. No dia que o disse ao marido, em outubro do ano passado, quase morreu.

"Eles começaram a brigar muito e o meu sobrinho ligou para uma amiga da minha irmã e falou: 'tia, o meu pai e a minha mãe estão a brigar muito, posso dormir na sua casa?'. Ela falou: 'pode'. E foi nesse dia que ele tentou matar a minha irmã", contou Gilmara Barbosa, irmã da mulher agora morta pelo filho.

Depois do crime, José acreditou que tinha matado Gabriela. "Ela estava inconsciente, com o pulso fraco, para ele ela estava morta. Ele mandou mensagem para a mãe como se a tivesse matado. E a mãe dele falou para ele ligar para o número de emergência. E eles conseguiram reanimá-la. Mas não foi violência doméstica. Foi tentativa de homicídio", garantiu ainda.

A estação televisiva divulga ainda um vídeo de Gabriela a contar que viu a filha a ver o marido a estrangulá-la: "Meu Deus, eu vou morrer aqui com a minha filha a ver tudo isso".

José foi detido e colocado em preventiva. O julgamento começa em setembro. Mas violência no lar desta família não terminou com a sua prisão. Continuou até culminar na morte de Gabriela na passada quinta-feira.


Leia Também: Jovem que matou mãe já tinha agredido pai (que quer guarda dos 2 filhos)

O adolescente que matou a mãe, na semana passada, em Algés, já tinha agredido a vítima e o pai, que se encontra, neste momento, em prisão preventiva pelo crime de violência doméstica. Apesar disso, a família paterna está disponível para o acolher, assim como a irmã, de 4 anos.

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