Rádio Voz da Guiné 4/09/2026Um oficial das Forças Armadas da Guiné-Bissau considera que a relação de Domingos Simões Pereira com os militares e a atuação de alguns dos seus apoiantes nas redes sociais podem constituir obstáculos às suas ambições políticas.
As declarações foram proferidas esta semana, em Bissau, sob anonimato durante uma conversa informal.
Apesar de reconhecer a popularidade do líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) junto de uma parte da população guineense, o militar considera que Domingos Simões Pereira comete um erro ao procurar manter as Forças Armadas afastadas da esfera do poder.
“Na África e não só, não pode governar sem apoio ou suporte das Forças Armadas.”
Na avaliação do oficial, as Forças Armadas continuam a desempenhar, em vários países africanos, um papel determinante nas disputas e na sustentação do poder político.
“Querendo governar um país e colocando estes nos seus respectivos cantos, esquece.”
O oficial criticou igualmente a atuação de alguns ativistas ligados a Domingos Simões Pereira nas redes sociais.
Para o militar, apesar da crescente influência das redes sociais na mobilização política e na formação da opinião pública, algumas intervenções de apoiantes do líder do PAIGC acabam por produzir efeitos negativos para a sua imagem política.
“Ele tem bastantes ativistas que têm prejudicado ele pensando que estão a ajudá-lo.”
Na opinião deste responsável militar, Domingos Simões Pereira deveria reunir-se com esses apoiantes e estabelecer uma estratégia mais clara para a comunicação política nas redes sociais.
“No fim de tudo, é ele quem sai prejudicado com a atuação destes.”
Durante a conversa, o oficial referiu-se também ao processo do referendo constitucional realizado na Guiné-Bissau no domingo, 30 de agosto de 2026.
Num tom irónico, questionou:
“A nossa Constituição passou ou não passou? Nós sabíamos que ia passar.”
A declaração ocorre num contexto de forte controvérsia política em torno do referendo. Setores da oposição classificaram o processo como um “fracasso total” e defenderam que a abstenção teria ultrapassado os 90%, interpretando a ausência às urnas como uma rejeição ao regime militar.
Os resultados divulgados pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), entretanto, apontaram para a vitória do “sim”. Segundo os dados provisórios, o “sim” obteve 383.117 votos, correspondentes a 70%, contra 160.904 votos do “não”. A CNE indicou ainda uma participação de 572.714 eleitores, num universo de 914.428 inscritos.
O referendo incidiu sobre alterações constitucionais que reforçam os poderes do Presidente da República e reduzem a composição parlamentar, entre outras mudanças.
Na mesma ocasião, o oficial revelou que pretende entrar na política depois de deixar as Forças Armadas.
“Eu, quando for para a reforma, vou também fazer política, porque tenho a minha formação superior e posso ser um excelente político.”
Ao analisar a atual conjuntura política, considerou que o país atravessa uma situação complexa e atribuiu parte dos problemas nacionais àquilo que classificou como “ambiguidade dos homens”.
Apesar de reconhecer a popularidade de Domingos Simões Pereira, o militar não demonstrou confiança numa eventual chegada do líder do PAIGC à Presidência da República.
Paralelamente às declarações do oficial, continuam a registar-se movimentações no interior de diferentes formações políticas guineenses, num momento em que o país se aproxima das eleições gerais previstas para dezembro.
O Presidente da República de Transição, Horta Inta-A, fixou 6 de dezembro de 2026 como data para a realização das eleições presidenciais e legislativas, através do Decreto Presidencial n.º 02/2026.
Uma suposta carta, datada de 28 de agosto e que circula nas redes sociais, indica que Ilídio Vieira Té, atual primeiro-ministro de transição e dirigente do Partido da Renovação Social (PRS), terá apresentado a sua renúncia “irrevogável e imediata” à militância da formação política.
Na alegada missiva, Ilídio Vieira Té afirma que foram anos de “entrega, participação ativa e de contribuição institucional”, mas considera ter chegado o momento de encerrar esse ciclo, em coerência com as suas convicções pessoais.
Também circulam informações segundo as quais Ilídio Vieira Té estaria a ponderar a criação de uma nova formação política, alegadamente denominada Partido Popular Guineense (PPG).
A mesma onda de movimentações envolve, segundo declarações e documentos que circulam nas redes sociais, Uffé Vieira, que exercia o cargo de presidente da Juventude do PRS.
Na declaração que lhe é atribuída, Uffé Vieira afirma ter tomado a decisão “com serenidade e respeito”, reconhecendo o período vivido, as experiências adquiridas e as oportunidades obtidas ao longo da sua trajetória política.
Também são apontadas como tendo deixado a formação política Abulai Dafé e Farid Michel Tavares Fadul, associados ao PRS da ala liderada por Félix Nandunguê.
No Partido dos Trabalhadores Guineenses (PTG), liderado pelo antigo ministro do Interior Botche Candé, também foi anunciada uma saída.
O deputado Ba Seco Cassamá, conhecido por Baiseck Cassamá, terá renunciado à militância no PTG.
Na declaração que circula nas redes sociais, o deputado afirma que a decisão resulta de uma reflexão pessoal, tomada “com serenidade e sentido de responsabilidade”, tendo em consideração o seu percurso pessoal e profissional e as suas perspetivas para o futuro.
Com as eleições presidenciais e legislativas previstas para 6 de dezembro, o cenário político guineense começa a registar novos alinhamentos, possíveis desfiliações e movimentações internas nos partidos.
As declarações do oficial das Forças Armadas acrescentam outro elemento ao debate, ao colocar em discussão a relação entre os partidos políticos, as Forças Armadas e o processo democrático.
𝗣𝗼𝗿: 𝗥á𝗱𝗶𝗼 𝗩𝗼𝘇 𝗱𝗮 𝗚𝘂𝗶𝗻é
𝗥𝗘𝗗𝗔ÇÃ𝗢 𝗖𝗘𝗡𝗧𝗥𝗔𝗟
𝗣𝗨𝗕𝗟𝗜𝗖𝗔𝗗𝗢 𝗘𝗠: [𝟬4-𝟬𝟵-𝟮𝟲]