© Hamad Al Kaabi/UAE Presidential Court/Handout via REUTERS LUSA 03/09/2026 Líder do partido conservador nacionalista Irmãos de Itália – que se uniu a duas outras forças de direita para formar a coligação governamental, o Força Itália (direita) e a Liga (extrema-direita) –, Meloni mantém-se popular em Itália e pode agora reivindicar ser garante de uma estabilidade muito rara na cena política italiana, onde em média os governos duram 13 meses, mas as próximas eleições prometem ser um grande desafio.
Além de o centro-esquerda estar a ganhar força, embalado por alguns triunfos em eleições locais e pela vitória alcançada há poucos meses num importante referendo sobre a reforma do setor da Justiça com a rejeição da proposta do Governo, surgiu este ano, ainda mais à direita dos Irmãos de Itália, um novo partido radical, Futuro Nacional, que ameaça fraturar o eleitorado dos três partidos atualmente no poder.
Com poucos resultados palpáveis para apresentar ao fim de quase quatro anos no poder, sendo praticamente nulas as reformas estruturais prometidas, Meloni reivindica ter moldado a nova política de combate à imigração irregular na União Europeia (UE) e ter recolocado a Itália num lugar de destaque a nível de política externa, mas quando os italianos forem chamados às urnas no próximo ano para escolher o novo governo, tais trunfos podem representar pouco, num país que continua a sofrer com o custo de vida e serviços públicos deteriorados.
Eis alguns pontos essenciais do recorde fixado pela primeira-ministra Giorgia Meloni enquanto líder do Governo com maior longevidade da história da República Italiana:
Meloni supera longevidade dos governos de Berlusconi
Ao alcançar a marca de 1.413 dias, Giorgia Meloni torna-se a chefe do Governo com maior longevidade em Itália desde a II Guerra Mundial e a implementação da República (1946), superando o registo do magnata Silvio Berlusconi, que ocupa agora os segundo e terceiro postos do 'pódio'.
Até agora, o executivo com maior tempo de vida numa República Italiana marcada por sucessivas quedas de governo era o segundo governo de Berlusconi, fundador do Força Itália (direita), que durou 1.412 dias, entre 11 de junho de 2001 e 23 de abril de 2005.
Berlusconi, falecido em junho de 2023, encabeçou também aquele que é o terceiro governo italiano com maior longevidade (1.283 dias), o quarto executivo que liderou em Itália, entre 08 de maio de 2008 e 16 de novembro de 2011.
Na quarta posição encontra-se o primeiro governo de centro-esquerda, liderado por Bettino Craxi (socialista) durante 1.058 dias, entre 04 de agosto de 1983 e 01 de agosto de 1986.
A primeira mulher PM à frente do governo mais à direita desde Mussolini
Fruto da vitória do seu partido pós-fascista Irmãos de Itália nas eleições de 2022, Giorgia Meloni tornou-se a primeira mulher a assumir a chefia de um governo em Itália, por sinal aquele mais à direita desde o ditador Benito Mussolini, pelo qual a atual primeira-ministra admitiu, enquanto jovem, ter admiração.
Apesar de, nos últimos anos, se esforçar por se afastar da ideologia fascista, que diz ter sido "remetida para a história há décadas pela direita italiana", Meloni tarda em dissipar as acusações do centro-esquerda de nutrir simpatia pelo fascismo.
Líder de um partido que se reconhece no lema "Deus, Pátria e Família", pelo qual se candidataram em eleições recentes descendentes (uma neta e um bisneto) de Benito Mussolini, e também presidente da família política europeia dos Conservadores e Reformistas Europeus, que alberga forças de extrema-direita como o espanhol Vox, Meloni, alega a oposição, permanece "refém de um passado do qual não se consegue distanciar".
Certo é que, depois de a sua eleição em 2022 ter feito soar os alarmes em Bruxelas, por receio de Itália se tornar um problema no funcionamento da União Europeia, Meloni rapidamente dissipou quaisquer temores, adotando uma postura diplomática, construtiva e europeísta, incluindo no apoio inequívoco à Ucrânia, tendo para tal tido várias vezes que 'silenciar' um dos seus parceiros de coligação, Matteo Salvini, próximo de Moscovo.
Combate à imigração ilegal a grande 'bandeira' de um governo com poucas reformas
Acusado pela oposição de não ter levado a cabo as reformas estruturais de que o país precisa, o Governo reivindica como uma das suas grandes vitórias a sua política em matéria de imigração irregular, vista como um exemplo a seguir por vários países da União Europeia.
O Governo de Meloni prometeu combater a imigração ilegal e, efetivamente, as chegadas irregulares a Itália diminuíram significativamente graças a uma política de 'mão dura' –"desumana", no entender de organizações não-governamentais –, que teve como maiores símbolos os polémicos centros de deportação de migrantes inaugurados na Albânia e a adoção de legislação para dificultar as operações de resgate de migrantes no Mediterrâneo e desembarque em solo italiano.
Os centros abertos na Albânia, e durante muito tempo mantidos vazios por diferentes acórdãos da Justiça italiana que exasperaram o executivo de Meloni, acabaram por ser 'legalizados' pelo novo Pacto sobre Migração e Asilo da UE, que tem muito o cunho do executivo italiano.
No entanto, com estudos de opinião a revelarem que os italianos estão particularmente insatisfeitos com o aumento do custo de vida, a estagnação dos salários e a deterioração dos serviços públicos, designadamente o sistema de saúde, o combate aos imigrantes ilegais pode ser um trunfo demasiado curto, até porque constitui também a 'bandeira' de outras forças radicais de direita que poderão beneficiar do descontentamento de eleitorado dos Irmãos de Itália.
De potencial interlocutora de Trump às zangas com o Presidente dos EUA
Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca após as eleições de 2024, Meloni nunca escondeu a ambição de se tornar a principal interlocutora da nova administração norte-americana com a União Europeia, assumindo um papel de relevo na cena internacional e de "ponte" entre EUA e Europa.
Contudo, o que começou como uma relação muito promissora – Meloni foi a única líder europeia a marcar presença na tomada de posse de Trump para o seu segundo mandato e eram frequentes as trocas de elogios – rapidamente 'descambou' este ano, com o Presidente norte-americano a passar a hostilizar aquela que era até recentemente uma das suas grandes aliadas.
O choque teve início em abril, na sequência das duras críticas do Presidente norte-americano ao Papa Leão XIV, que acusou de ser "fraco" em relação ao crime e "péssimo" em política externa, o que mereceu reparos de Meloni, de que Trump não gostou.
A recusa de Roma em permitir que os Estados Unidos usassem as suas bases militares em Itália para lançar ataques ao Irão levaram à deterioração definitiva das relações, com o Presidente norte-americano a acusar a primeira-ministra italiana de o ter "abandonado" e de ser uma "desilusão".
Meloni perdeu de vez a paciência para as provocações de Trump depois de, em junho e julho, o Presidente norte-americano a ter atacado pessoalmente, primeiro ao garantir que a primeira-ministra italiana lhe tinha "implorado" para tirarem uma foto juntos na cimeira do G7, e depois com uma publicação nas redes sociais de uma fotografia de Meloni a olhar com um sorriso na sua direção, acompanhada da frase "É necessária uma ordem de restrição".
A primeira-ministra italiana foi particularmente dura na resposta, acusando Trump de inventar falsidades, e garantiu que não voltaria a responder a provocações.
Irmãos de Itália, de Meloni, sempre à frente nas sondagens, mas esquerda ameaça
Tal como sucede desde as eleições que lhe permitiram chegar ao poder, em 2022, Meloni continua a liderar as sondagens, com o seu partido Irmãos de Itália a seguir em primeiro lugar com cerca de 27% das intenções de voto, em linha com o resultado alcançado há sensivelmente quatro anos.
No entanto, de acordo com as mais recentes sondagens, a grande coligação de esquerda, o chamado "Campo Largo", que ainda não elegeu um líder para fazer frente a Meloni mas parece apostado em superar as tradicionais divisões que marcam a esquerda italiana, está a encurtar distâncias, com a principal força da oposição, o Partido Democrático (PD), de Elly Schlein, a ter cerca de 20,7% das intenções de votos, seguindo-se, no terceiro lugar, o Movimento Cinco Estrelas, que faz parte do tal "campo largo", com 12,7%.
As próximas eleições legislativas terão de se realizar até 22 de dezembro, mas muito provavelmente terão lugar meses antes, eventualmente até na próxima primavera.
Meloni sofreu este ano primeiro desaire nas urnas
Eleita presidente dos Irmãos de Itália em 2014, Meloni teve uma trajetória ascendente até chegar, em outubro de 2022, ao Palácio Chigi, sede do Governo italiano, tendo conhecido apenas este ano a primeira grande derrota nas urnas, a sensivelmente um ano de novas eleições legislativas.
Desde que assumiu o poder, o Governo de Meloni tem atacado sistematicamente o poder judicial, acusando-o de estar "politizado" e a minar o seu trabalho, e a reforma do setor era provavelmente a grande prioridade da legislatura, mas foi chumbada de forma clara, com o "não" (apoiado pela oposição) a vencer com perto de 54% e cerca de mais dois milhões de votos do que o "sim".
O resultado foi tanto mais significativo dado a afluência às urnas, num referendo que nem precisava de quórum de participação mínima, ter sido a segunda mais alta de sempre em referendos confirmativos (59%), superando por exemplo por larga margem a afluência registada em Itália nas últimas eleições europeias de 2024 (49,7%).
De acordo com a generalidade dos analistas, tal afluência deu um cariz mais político ao referendo, quase de moção de confiança, tendo Meloni arriscado demais com uma consulta que ditou o fim da sua aura de invencibilidade, intocável até à realização do referendo, e deu novo fôlego à oposição, que passou a apresentar-se como uma alternativa viável.
General Vannacci, a nova ameaça (ainda mais) à direita
A coligação encabeçada por Meloni corre o risco de ver parte do seu eleitorado virar-se para Roberto Vannacci, um antigo general que critica regularmente os migrantes e a comunidade LGBTQ+ e que, mês após mês, tem visto a sua popularidade crescer.
Recém-criado, o seu partido, Futuro Nacional, conta já, de acordo com as mais recentes sondagens já após a pausa de verão, com cerca de 7,5% das intenções de voto, superando mesmo quer o Força Itália (7,1%), quer a Liga (5,7%), partidos liderados respetivamente por Antonio Tajani e Matteo Salvini, os dois vice-primeiros-ministros do atual Governo.
Meloni quer uma nova lei eleitoral – à sua medida, segundo a oposição
Com as próximas eleições parlamentares a aproximarem-se, o Governo de Meloni pretende alterar o sistema eleitoral italiano, propondo um bónus de assentos parlamentares para um bloco político que obtenha um resultado acima de determinada fasquia.
O executivo de direita e extrema-direita defende esta reforma com o argumento de que tal criaria governos mais fortes e estáveis num país onde os executivos, por regra, não terminam a legislatura, mas a oposição é unânime em apontar que a mesma visa apenas e só beneficiar de forma desproporcional a coligação conservadora e aumentar as suas hipóteses de se manter no poder.
Num editorial publicado esta semana, intitulado "O termómetro do medo de Giorgia Meloni", o jornal La Repubblica nota que, na sua versão original, a proposta da primeira-ministra previa um bónus de 70 deputados e 35 senadores ao bloco político que conseguisse chegar aos 45% dos votos – numa altura em que as sondagens apontavam para intenções de voto nessa ordem para os partidos da coligação –, tendo entretanto descido para 40%, ou mesmo 38%, precisamente o que os estudos de opinião agora atribuem ao Governo.
Também esta reforma da lei eleitoral poderá 'cair', não só porque há dúvidas em torno da sua constitucionalidade, mas também porque mesmo os dois atuais aliados de Meloni – Força Itália e Liga – não estão muito convencidos de virem a ser beneficiados com uma mudança à lei que receiam ser feita à medida dos Irmãos de Itália, de forma mais destacada o partido mais popular na direita italiana.
O governo de direita radical liderado por Giorgia Meloni torna-se na sexta-feira o executivo mais duradouro dos 80 anos de história da República Italiana, marcada pela instabilidade política, com constantes mudanças de executivo, nada menos que 68.