© Ahmad Salem/Bloomberg via Getty Images Por LUSA 06/07/2026
"O presidente do comité de emergência do Governo, Mohammed al-Farra, apresentou oficialmente a sua demissão", declarou à AFP Ismail al-Thawabta, diretor do gabinete de comunicação social do Governo do Hamas, acrescentando que foi decidida "a dissolução do comité para facilitar a transição administrativa e governativa para o Comité Nacional para a Administração de Gaza (NCAG)".
O comité foi criado pelo Conselho de Paz, estabelecido pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, durante as negociações que conduziram ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em outubro de 2025.
O NCAG, presidido pelo palestiniano Ali Shaath, tem sede no Cairo há vários meses, depois de Israel se ter oposto, segundo várias informações, ao seu destacamento para o território devastado pela guerra.
Decisão do Hamas é simbólica mas constitui uma viragem política
A decisão do Hamas representa um ponto de viragem político para o movimento islamita, que tomou o poder na Faixa de Gaza em 2007, após confrontos com a Fatah, movimento do Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, com sede em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.
Alguns meses após o início da guerra entre Israel e o Hamas, desencadeada pelo ataque do movimento islamita em território israelita em 07 de outubro de 2023, o Hamas afirmou estar disposto a abandonar o poder em Gaza em favor de outra liderança palestiniana.
Desde então, foram avançados vários cenários, mas a situação no terreno permanece bloqueada. Um dos principais pontos de discórdia continua a ser o desarmamento do Hamas, que insiste que apenas aceitará essa medida no âmbito de uma iniciativa política palestiniana, condição rejeitada por Israel.
"O Hamas dá um novo passo ao renunciar à administração da Faixa de Gaza, retirando à ocupação qualquer pretexto para prosseguir a sua agressão e a sua guerra de extermínio", afirmou à agência France-Presse (AFP) o porta-voz do movimento, Hazem Qassem.
Um responsável do Hamas tinha indicado anteriormente à AFP que o movimento já tinha informado as restantes fações palestinianas da decisão durante uma recente reunião realizada no Cairo.
Principal obstáculo é desarmamento do Hamas
Para o politólogo palestiniano Mkhaimar Abusada, ouvido pela AFP, a decisão do Hamas é, acima de tudo, "simbólica".
"O problema não é a dissolução do seu comité governativo, mas a aceitação do seu desarmamento. [...] Esse continua a ser o principal obstáculo", afirmou.
"Do ponto de vista do Hamas, este anúncio permite responder a vários objetivos", explicou à AFP uma fonte diplomática que participou em algumas das negociações no Cairo.
A mesma fonte considerou que a decisão "mostra que o movimento faz avançar o processo, ao mesmo tempo que procura evidenciar aquilo que considera ser o incumprimento, por parte de Israel, dos compromissos assumidos".
Segunda fase do cessar-fogo ainda bloqueada
A primeira fase do cessar-fogo permitiu a libertação dos últimos reféns israelitas detidos pelo Hamas, em troca de palestinianos presos por Israel.
Contudo, a passagem à segunda fase, que previa o desarmamento do Hamas e uma retirada gradual das forças israelitas da Faixa de Gaza, permanece bloqueada há vários meses.
Pelo contrário, as forças israelitas reforçaram a sua presença no enclave, enquanto o modelo de governação da Faixa de Gaza no pós-guerra continua a ser um dos principais pontos de divergência.
Israel exclui qualquer regresso do Hamas ao poder, mas rejeita igualmente, nesta fase, o restabelecimento da administração direta da Faixa de Gaza pela Autoridade Palestiniana.
O Hamas e Israel acusam-se mutuamente de violar o cessar-fogo.
Mais de mil palestinianos mortos desde a trégua
Pelo menos 1.072 palestinianos morreram na Faixa de Gaza desde a entrada em vigor da trégua, segundo o Ministério da Saúde do território, tutelado pelo Hamas, cujos dados são considerados fiáveis pelas Nações Unidas.
O Exército israelita afirma ter perdido, no mesmo período, cinco militares e um prestador de serviços civis em Gaza.
Leia Também: 40 mil funcionários públicos de Gaza pedem proteção após queda do Governo
Cerca de 40.000 funcionários do setor público de Gaza exigiram hoje a salvaguarda dos direitos profissionais e económicos, após a dissolução do Governo do Hamas, que dará lugar ao Comité Nacional para a Administração de Gaza.


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