© Lusa Por Notícias ao Minuto 04/07/2026
O analista político guineense Rui Landim criticou a atuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que, a seu ver, desde os primórdios, nunca teve uma atuação eficaz no seu país.
"A CPLP foi criada em 1996, em 1998 a Guiné-Bissau mergulhou numa guerra civil e logo aí não houve intervenção", refletiu.
Agora, o país encontra-se, pela primeira vez na sua História, suspenso da CPLP, assim como de outras organizações, devido ao golpe de Estado militar de 26 de novembro de 2025, na véspera da divulgação dos resultados eleitorais de 23 de novembro.
Nesse seguimento, o ativista guineense questionou: "Qual é a consequência dessa suspensão? A Guiné-Bissau vive há cerca de 12 anos uma crise [política] e nada de CPLP".
Além disso, prosseguiu, Domingos Simões Pereira, líder do histórico Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que foi secretário-executivo da CPLP entre 2008 e 2012, está detido e a organização lusófona, aparentemente, nada fez sobre isso.
O professor moçambicano Elísio Macamo corrobora essa opinião.
"Domingos Simões Pereira, líder da oposição guineense e ex-secretário-executivo da CPLP, está detido há meses "sem nenhuma acusação (...) e não se vê nada da parte da CPLP em relação a isso", criticou.
"É nesses momentos que se pode perguntar, com certa legitimidade, para que é que uma organização dessas existe", frisou o docente.
O especialista brasileiro em História das Relações Internacionais Adriano de Freixo questionou o efeito prático do envio de uma missão de ofício ao país.
"Mandar uma missão de ofício seria muito mais para chegar lá e verificar que, de fato, a situação se deteriorou desde o golpe de Estado [militar de 26 de novembro], que a oposição está calada, que há violações de direitos humanos, que há repressão a manifestações contrárias ao Governo militar. [Essa missão] iria lá, confirmaria isso, a Guiné-Bissau continuaria suspensa, e aí, qual a consequência prática disso?", refletiu.
"O que significou para a Guiné-Bissau a suspensão da CPLP? Nada. É uma coisa mais simbólica do que outra coisa. Não tem efeito prático, da mesma maneira que uma missão no país não teria nenhum efeito prático porque não há mecanismos dentro da CPLP que permitam exercer controlo sobre os Estados-membros para que cumpram os princípios fundadores", acrescentou.
Para o presidente da Universidade Lusíada de São Tomé e Príncipe, Liberato Moniz, tem havido uma indiferença internacional enorme perante o que se passa na Guiné-Bissau.
"Nós vemos, na televisão portuguesa e brasileira, guerras que estão a milhares de quilómetros, mas o que está mesmo aqui ao lado ninguém fala", lamentou ex-pré-candidato presidencial, que considerou que a missão de ofício à Guiné-Bissau "faz todo o sentido", mas exige "objetivos concretos" para ajudar a mudar a situação do país.
Divergindo sobre o estatuto do país na comunidade, o politólogo angolano Almeida Henriques defendeu que a Guiné-Bissau "não reúne condições para pertencer à organização".
O analista argumentou que a falta de verticalidade institucional, a profunda instabilidade política interna e a necessidade de respeitarem os valores democráticos impedem o país de responder aos anseios mínimos exigidos pela CPLP.
Por outro prisma, o analista português Fernando Jorge Cardoso explicou que "o que se passa na Guiné-Bissau tem raízes regionais que ultrapassam a CPLP".
"O que aconteceu, como sabemos, foi uma encenação de golpe. Ele [Sissoco Emabaló] ia perder as eleições e, portanto, fez-se de conta que houve um golpe de Estado. Mas sabe-se que ele tem apoio da Nigéria e nenhum país da CPLP vai confrontar Lagos", explicou.
"Qual é o país da CPLP que se vai meter com a Nigéria? Portugal? Nem pensar. O Brasil? Nem pense", acrescentou o especialista em estudos africanos.
Nesse seguimento, o professor na Universidade Autónoma de Lisboa sustentou que a não interferência da CPLP na Guiné-Bissau se explica porque "aqueles que mandam na CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, sediada em Abuja, na Nigéria] não deixam".
"As organizações regionais africanas têm primazia territorial e a CPLP não tem capacidade política nem militar para agir de forma independente neste contexto", contextualizou.
Para o sociólogo cabo-verdiano Redy Lima, comparar a CPLP à CEDEAO é injusto, pois "a CEDEAO tem muito mais peso, tem muito mais presença".
De acordo com o analista cabo-verdiano, a "Guiné-Bissau é um grande exemplo do peso político inexistente da CPLP".
Por outro lado, e referindo-se diretamente a Portugal, "o passado colonial acaba sempre por envergonhar um pouco a ação da CPLP", pois facilmente é usado esse argumento contra a ex-metrópole, como o próprio Sissoco Embaló chegou a fazer, recordou.
Sobre o anúncio de 23 de junho relativo à possibilidade da saída da Guiné-Bissau da CPLP, após as eleições previstas para dezembro, Fernando Jorge Cardoso declarou que uma rutura ou saída formal do país é improvável, uma vez que o atual regime depende do financiamento de Portugal e da União Europeia, assim como de doadores internacionais, defendido pela diplomacia portuguesa.
A CPLP, que assinala 30 anos a 17 de julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que detém a presidência rotativa temporária da organização desde a suspensão de Bissau.

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