domingo, 22 de março de 2026

Macau requer "medidas radicais" face à natalidade mais baixa do mundo... Investigadoras disseram à Lusa que, para reverter a natalidade mais baixa do mundo, Macau precisa de "medidas mais radicais" do que meros subsídios para melhorar a vida de toda a população.

© Lusa   22/03/2026 

Em 2025, a região registou 2.871 recém-nascidos, o menor número em quase meio século. No ano anterior, a taxa de fecundidade tinha sido de 0,58 nascimentos por mulher, longe do necessário para a substituição de gerações (2,1).

Segundo estimativas do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas, Macau terá tido em 2024 a mais baixa natalidade do mundo, seguida de Singapura, com uma taxa de fecundidade de 0,95 nascimentos por mulher.

Algo que "reflete pressões estruturais comuns em muitas economias urbanas do leste asiático onde o custo de vida é elevado", disse Emma Zang Xiaolu, socióloga da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

Em Hong Kong, 15 escolas primárias estão em risco de fechar após a vizinha região chinesa ter registado em 2025 cerca de 31.100 nascimentos, o número mais baixo de sempre.

A China continental registou 7,92 milhões de nascimentos em 2025, o valor mais baixo desde a fundação da República Popular da China, em 1949. A taxa de natalidade também caiu para mínimos históricos.

"Aquelas trajetórias de vida muito convencionais, sobre a idade em que se deve casar e, depois de casar, deve-se ter filhos, essas normas foram enfraquecendo", disse Mu Zheng, socióloga da Universidade Nacional de Singapura.

À medida que o leste asiático se tornou mais desenvolvido e rico, as pessoas "valorizam mais as preferências individuais", apesar da influência "da família e dos valores familiares" ser ainda maior do que no Ocidente, acrescentou.

Mas a pressão da família colide com "muitos outros tipos de pressões", sublinhou Mu Zheng, incluindo expectativas de um bom desempenho académico e, mais tarde, uma cultura de trabalho "muito exigente".

Emma Zang também aponta "as longas jornadas de trabalho" como fatores que dificultam a constituição de uma família, juntamente com "os custos de habitação e a incerteza quanto às oportunidades económicas futuras".

Macau era a 13.ª cidade mais cara do mundo em 2024, de acordo com um inquérito da empresa de consultoria norte-americana Mercer, sobretudo devido ao preço da habitação.

As pressões sentidas em outras cidades do leste asiático "são intensificadas" em Macau, sublinhou Emma Zang, "por uma economia altamente especializada e pelo espaço habitacional limitado".

Ter filhos ainda não está nos planos de Emily Cheong, de 29 anos, apesar de já ter casado há três anos. "Ainda estamos a viver com os meus pais, a tentar poupar para a entrada de um apartamento", explicou a residente à Lusa.

A situação do casal complicou-se no ano passado, quando encerrou o 'casino-satélite' em que trabalhava o marido de Cheong, um 'croupier' que conseguiu encontrar um novo emprego, mas com um salário mais baixo.

Dez 'casinos-satélite' -- espaços sob a alçada das concessionárias de jogo, mas geridos por outras empresas -- fecharam portas em 2025, antes da data limite imposta quando a legislação que regula os casinos foi alterada, em 2022.

O Governo de Macau introduziu medidas para incentivar a natalidade, como um subsídio, no valor total de 54 mil patacas (cerca de 5.830 euros), para crianças até aos três anos.

Mas Emma Zang não está otimista: "Incentivos governamentais podem ajudar de forma marginal, mas estudos a nível mundial sugerem que os subsídios financeiros, por si só, raramente revertem o declínio".

"Muitas dessas políticas não são particularmente eficazes", confirmou Mu Zheng, porque os incentivos "podem não ser suficientemente grandes para realmente remover toda a ansiedade" dos jovens adultos.

A socióloga deu como exemplo a expectativa, colocada nos pais, de "um investimento intensivo, de tempo, energia e dinheiro, no desenvolvimento e educação dos filhos".

Emma Zang acredita que "melhor acessibilidade à habitação, equilíbrio entre o trabalho e a família e disponibilidade de cuidados infantis tendem a ser mais importantes para a estabilização demográfica a longo prazo".

O Governo de Macau prometeu oferecer, de forma gratuita, mais e melhores creches e lançou uma consulta pública, que terminou na segunda-feira, sobre o aumento, no setor privado, da licença de maternidade, de 70 para 90 dias.

Políticas que "realmente apoiem as famílias jovens e incentivem a igualdade de género", nomeadamente na divisão do trabalho doméstico, podem funcionar, mas Mu Zheng sublinha que mesmo na Escandinávia o efeito foi-se esbatendo.

A socióloga diz que, a longo prazo, é preciso "medidas mais radicais e abrangentes", incluindo "criar uma cultura de trabalho mais amiga" da vida familiar e "reduzir a pressão sobre a saúde mental".

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