Por LUSA
Em entrevista à Lusa, a ativista da Amnistia Internacional na África do Sul disse que a Organização Não-Governamental (ONG) tem testemunhado, desde o início do ano, movimentos no país que têm impedido os imigrantes de aceder a cuidados de saúde e a escolas.
"É triste ver como esta xenofobia, esta violência xenófoba, tem vindo a acontecer na África do Sul", declarou, numa entrevista feita por telefone no âmbito do 50.º aniversário do massacre de Soweto, em Joanesburgo, que se assinala a 16 de junho.
A ONG condena toda a violência contra imigrantes e a retórica xenófoba, sublinhou.
A violência tem gerado "muito medo entre as pessoas que são imigrantes na África do Sul", o que "viola os seus direitos à segurança e proteção", afirmou.
Nesse contexto, apelou ao Governo sul-africano que corrija "os seus sistemas que regulam a imigração, incluindo o sistema de asilo", onde se verificam "muitos atrasos", o que deixa "as pessoas a viver num limbo", pois não vivem regularizadas.
"Portanto, há muito a fazer por parte do Governo para garantir que as pessoas que fogem dos seus países e vêm para cá em busca de asilo estejam seguras e protegidas, e também por parte do executivo para travar a violência xenófoba que está a acontecer e garantir a segurança e a proteção de todos os que vivem na África do Sul", frisou.
A Amnistia Internacional, recordou, tem vindo a alertar para o uso de imigrantes como bodes expiatórios "quando se trata de questões económicas e de acesso a serviços básicos".
Para Cassandra Dorasamy, as ondas xenófobas no país, que são recorrentes, estão relacionadas com o facto de "muitos sul-africanos não estarem a usufruir dos direitos previstos na Constituição no que toca ao acesso à habitação, ao acesso à água e ao saneamento, à segurança, à segurança económica, ao bem-estar e à proteção".
"Devido à escassez de recursos, por vezes, parece oportuno para as pessoas desviar as atenções e culpar os imigrantes por todos os problemas que as rodeiam, quando, na verdade, é responsabilidade do Governo garantir que esses direitos sejam assegurados. Portanto, tem havido decididamente uma diabolização dos imigrantes face aos problemas que enfrentamos na África do Sul", refletiu.
Por fim, frisou que a ONG defende que o Governo e a polícia sul-africana precisam de garantir a proteção dos imigrantes no país, que é vizinho de Moçambique.
"É inaceitável que a polícia permita o assédio, a intimidação e a violência contra imigrantes e não faça nada", reiterou.
As tensões xenófobas são um problema recorrente na África do Sul e levam frequentemente a ondas de protestos violentos, especialmente nos bairros mais vulneráveis.
Os protestos mais graves ocorreram no final de 2019, resultando na morte de 18 estrangeiros, segundo dados da organização Human Rights Watch (HRW).
Na atual onda de protestos, manifestantes anti-imigração sul-africanos deram até 30 de junho para todos os estrangeiros abandonarem o país e o Governo da África do Sul anunciou nos últimos dias restrições às políticas migratórias.
Centenas, e nalguns casos até milhares, de migrantes foram repatriadas pelos próprios países, como Moçambique (mais de 700) ou a Nigéria (mais de mil), e a África do Sul foi alvo de críticas internacionais por xenofobia.

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