sábado, 6 de junho de 2026

Cientistas alertam para os riscos de levar vida terrestre para outros planetas... Estudo internacional com investigador da Universidade do Minho pede prudência na introdução de vida fora da Terra para não se repetirem “erros ecológicos cometidos na Terra”.

Por  SIC Notícias 

A introdução de organismos terrestres noutros planetas ou luas poderá desencadear invasões biológicas irreversíveis, alerta um estudo internacional. Os autores defendem a criação de regras internacionais para regular futuros projetos de terraformação e evitar que se repitam no espaço erros ecológicos já observados na Terra.

Publicado por uma equipa internacional de investigadores, o trabalho analisa os riscos associados à terraformação, o processo teórico de modificar um planeta ou outro corpo celeste para criar condições mais favoráveis à vida terrestre.

Segundo o estudo, a introdução de microrganismos, plantas ou animais em ambientes extraterrestres poderá ter consequências imprevisíveis caso esses organismos escapem ao controlo.

"A introdução de espécies da Terra em corpos extraterrestres é um evento de invasão potencialmente imprevisível", afirma Ronaldo Sousa, investigador do Centro de Biologia Molecular e Ambiental da Escola de Ciências da Universidade do Minho e coautor do trabalho.

De acordo com o cientista, "a presença prolongada na Lua ou em Marte pode contribuir para a sobrevivência da humanidade a longo prazo, mas também pode alterar esses ecossistemas".

"Devemos evitar criar as primeiras espécies invasoras interplanetárias e repetir erros ecológicos cometidos na Terra".

Lições retiradas da Terra

Os investigadores defendem que a colonização espacial deve ser regulada, "com princípios similares (aos utilizados) no combate a espécies invasoras na Terra", incluindo medidas de prevenção, monitorização e avaliação de riscos.

O objetivo é "antecipar problemas ambientais, éticos e evolutivos, evitando que passem da ficção científica para a realidade".

Ronaldo Sousa dá o exemplo da introdução de espécies em novos ambientes, como o caso dos coelhos e das raposas introduzidos na Austrália no século XIX, que provocaram impactos profundos nos ecossistemas locais.

O investigador refere ainda o acidente da sonda israelita Beresheet, que se despenhou na Lua em 2019 e que poderá ter libertado milhares de tardígrados, pequenos organismos microscópicos conhecidos pela sua extraordinária resistência a temperaturas extremas, radiação e desidratação.

"As missões espaciais estão no centro do debate político e científico, pelo que importa falarmos também da terraformação, que traz riscos profundos de desestabilização de ambientes extraterrestres".

Fungos, bactérias e organismos sintéticos

O estudo, em coautoria com Teun Everts, da Bélgica, e Phillip Haubrock, do Reino Unido, propõe encarar a terraformação como "uma forma de introdução biológica mediada por humanos e não apenas como engenharia planetária".

Entre os organismos considerados potenciais candidatos para futuras missões de terraformação estão fungos resistentes à radiação, cianobactérias, microrganismos produtores de metano e organismos sintéticos. Estes organismos poderão ajudar a formar solos, produzir oxigénio ou alterar atmosferas.

No entanto, os investigadores alertam que também poderão produzir subprodutos tóxicos ou desencadear alterações ecológicas difíceis de prever em ambientes com recursos limitados.

Perante estes riscos, os autores defendem a rápida criação de mecanismos internacionais de supervisão e a colaboração entre biólogos, astrobiólogos, especialistas em ética e decisores políticos.

"A ciência das invasões fornece décadas de conhecimento sobre prevenção, deteção precoce, avaliação de impactos e gestão de espécies introduzidas", sublinha Ronaldo Sousa.

Para os investigadores, o futuro da exploração espacial dependerá não apenas dos avanços tecnológicos, mas também da capacidade de aplicar as lições aprendidas com os erros ecológicos do passado.

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