© Lusa 10/04/2026
"Os iranianos parecem não perceber que não têm cartas, exceto a extorsão de curta duração do resto do mundo utilizando as rotas marítimas internacionais. A única razão pela qual ainda estão vivos hoje é para negociar", escreveu Donald Trump na sua rede social.
Numa mensagem separada, o político republicano acrescentou: "Os iranianos são melhores a manipular os 'media' mentirosos e nas 'relações públicas' do que a lutar!"
A analogia de um jogo já tinha sido usada pelo Presidente norte-americano em fevereiro de 2025 quando destratou publicamente o homólogo ucraniano, num tenso encontro na Sala Oval da Casa Branca, avisando Volodymyr Zelensky que já não tinha cartas para usar no conflito com a Rússia.
O controlo do estreito de Ormuz, por onde passavam 20% do petróleo e gás natural liquefeito do mundo antes da guerra lançada em 28 de fevereiro por Estados e Israel contra o Irão, está no centro das negociações de paz, em Islamabad, no fim de semana, entre as delegações norte-americana e iraniana.
O Irão e os Estados Unidos tinham afirmado que o estreito de Ormuz seria desbloqueado depois de terem anunciado na terça-feira à noite um cessar-fogo de duas semanas, mas desde então apenas um pequeno número de navios conseguiu utilizar esta via marítima estratégica colocada sob ameaça militar por Teerão.
Na quinta-feira, Trump acusou o Irão de que "não estava a cumprir a sua parte" em Ormuz, no âmbito do cessar-fogo, anunciado pouco antes de expirar o prazo de um ultimato dado à República Islâmica de levantar o bloqueio sob ameaça de apagar "uma civilização inteira".
Em declarações ao jornal New York Post, o Presidente dos Estados Unidos indicou também que as forças armadas norte-americanas estavam a preparar-se para novos ataques caso as negociações no Paquistão não produzam resultados.
"Estamos a começar tudo de novo. Estamos a carregar os navios com as melhores munições, as melhores armas alguma vez construídas, até melhores do que as que tínhamos antes, quando já tínhamos destruído tudo", afirmou, ameaçando: "Se não houver acordo, vamos usá-las, e vamos usá-las com muita eficácia".
O presidente do parlamento iraniano exigiu, pelo seu lado, que o cessar-fogo abranja também os confrontos entre Israel e o grupo xiita libanês Hezbollah e o desbloqueio dos ativos do país antes de se sentar à mesa das negociações.
"Duas das medidas acordadas pelas partes ainda precisam de ser implementadas: um cessar-fogo no Líbano e o desbloqueio dos ativos do Irão, antes do início das negociações", escreveu Mohammad Bagher Ghalibaf numa rede social.
O levantamento do congelamento dos ativos iranianos sujeitos a sanções não tinha sido mencionado publicamente por Teerão como condição prévia para as negociações, embora esteja incluído na lista de dez exigências para um acordo de paz.
Israel e Estados Unidos consideram que o Líbano não está abrangido pelo cessar-fogo em vigor, apesar de a mediação paquistanesa ter dito inicialmente o contrário e Teerão inclua os ataques de Israel no país vizinho nas violações da trégua que diz terem sido já cometidas.
Antes da mensagem de Ghalibaf, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, esperado em Islamabad para liderar a delegação de Washington nas conversações, aconselhou o Irão a "não brincar" com os Estados Unidos.
"Se nos tentarem enganar, vão descobrir que a equipa de negociação não está muito recetiva", advertiu.
As negociações de paz têm como temas centrais o fim duradouro da guerra, do bloqueio do estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano e a produção mísseis de longo alcance, o apoio de Teerão a grupos armados no Médio Oriente, como o Hezbollah no Líbano, os Huthis no Iémen ou o Hamas na Palestina, e as sanções económicas à República Islâmica.
Além de JD Vance, a delegação norte-americana é constituída pelos enviados da Casa Branca Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump.
Embora não confirmada oficialmente, a parte iraniana deverá ser liderada pelo presidente do parlamento e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi.
O último processo negocial, que decorria sob mediação de Omã, foi interrompido pelo início da ofensiva aérea israelo-americana contra a República Islâmica em 28 de fevereiro.

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