© Alexander NEMENOV / AFP via Getty Images Por LUSA 16/07/2026
"Temos de dizer a verdade às pessoas. Temos de dizer que a política com que Putin governa o país conduz ao caos e talvez, Deus nos livre, a uma catástrofe", afirmou Nadejdine, numa entrevista hoje divulgada e dada na quarta-feira à agência noticiosa France-Presse (AFP) em Dolgoprudny, nos arredores de Moscovo, onde reside.
O político, de 63 anos, pretende candidatar-se à Duma, a câmara baixa do parlamento russo, nas eleições legislativas de setembro, mas terá de comparecer na sexta-feira num tribunal de Dolgoprudny, acusado de "exibição de símbolos extremistas".
Por esta alegada infração administrativa arrisca uma pena máxima de 15 dias de detenção, embora não esteja excluída a possibilidade de as autoridades russas avançarem posteriormente com acusações de maior gravidade.
Nadejdine afirmou à AFP que ponderou nos últimos dias abandonar a Rússia caso se confirme a ameaça de prisão, embora tenha garantido que não pretende deixar o país e que se sente "ligado à pátria".
Contudo, essa possibilidade poderá já não existir. O opositor anunciou hoje, através da aplicação Telegram, que durante a noite foi notificado pelas autoridades de uma "proibição de sair do país", medida que está a analisar com os seus advogados.
Nadejdine é uma das poucas figuras na Rússia que continuam a criticar publicamente Putin e a ofensiva militar na Ucrânia sem estarem presas ou no exílio.
No final de 2023, o antigo deputado da Duma (2000-2003) foi o único opositor à guerra a apresentar uma candidatura contra Putin nas eleições presidenciais de março de 2024, mas as autoridades eleitorais recusaram validá-la, alegando irregularidades na recolha de assinaturas.
"É preciso fazer tudo o que estiver ao vosso alcance. Se forem políticos, devem dizer a verdade e tentar ser eleitos para que as pessoas vos apoiem. Se forem cidadãos comuns, podem ir votar e não votar na Rússia Unida", o partido pró-Kremlin, declarou.
Nadejdine afirmou agir "sempre exclusivamente dentro da legalidade" e defendeu que os esforços da oposição visam "uma mudança de poder na Rússia por meios pacíficos".
Na semana passada, foi incluído na lista de "agentes estrangeiros", estatuto imposto pelas autoridades russas que implica fortes restrições e cujo incumprimento pode ser punido com multas ou penas de prisão.
Devido a essa classificação e ao processo judicial em curso, a candidatura às legislativas, para a qual estava a recolher assinaturas, ficou seriamente comprometida.
Nadejdine disse que a abertura do processo tem a ver com o aumento da sua popularidade após o lançamento da campanha eleitoral, por representar, para o Kremlin (presidência russa), "a perspetiva indesejável" do aparecimento de um deputado da oposição na Duma.
"Hoje, absolutamente todos os deputados apoiam Putin e a guerra", afirmou.
Após o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Moscovo intensificou a repressão interna, prendendo centenas de críticos da guerra. A quase totalidade das principais figuras da oposição encontra-se atualmente presa, morreu ou vive no exílio.
Nadejdine classificou como "ridículas" e "absurdas" as acusações de "exibição de símbolos extremistas" que lhe são imputadas.
Segundo explicou, as acusações baseiam-se apenas no facto de, em 2023, ter divulgado no seu canal na rede social Telegram o anúncio de um programa de outra opositora no qual, "ao minuto 48, surge fugazmente uma fotografia de Navalny".
O opositor Alexei Navalny, declarado "extremista" pelas autoridades russas, morreu na prisão em 2024. Os seus colaboradores sustentam que foi envenenado por ordem de Putin. Desde então, as autoridades têm acusado regularmente cidadãos de promover o "extremismo" por partilharem declarações ou até fotografias de Navalny.
"É como se eu fosse convidado para casa de uma jovem que tivesse um retrato de Navalny na parede e depois me dissessem: como visitou uma casa onde havia um retrato de Navalny, é extremista. Os nossos tribunais consideram que as fotografias de Navalny são símbolos de uma organização extremista. É um delírio", ironizou.

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