sábado, 20 de junho de 2026

Irão acusa França de "hipocrisia" pelas críticas à repressão no país... O Irão acusou hoje a França de "hipocrisia e dupla moral" após o ministro dos Negócios Estrangeiros francês se ter referido ao povo iraniano como "o maior perdedor da guerra" e uma sociedade "enredada entre a repressão e os bombardeamentos".

© Lusa      20/06/2026 

"Parece que a hipocrisia e a dupla moral continuam a ser caraterísticas da cultura política francesa até aos dias de hoje", declarou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Ismail Bagaei, na rede social X, citando uma frase de Jean-Baptiste Poquelin (Molière), dramaturgo e poeta francês do século XVII, na obra "Tartufo": "A hipocrisia tornou-se moda". 

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, afirmou na sexta-feira que a população iraniana é "a maior perdedora da guerra", após o memorando de entendimento assinado entre Washington e Teerão, argumentando que se trata de um povo "encurralado entre a repressão estatal" e os ataques dos Estados Unidos e de Israel.

Em resposta, Bagaei criticou duramente o ministro francês pelo seu silêncio durante a guerra iniciada em 28 de fevereiro por Israel e os EUA contra o Irão.

"Manteve-se em silêncio enquanto cidades iranianas eram brutalmente bombardeadas e cidadãos inocentes eram massacrados em Minab, Teerão, Lamard, Isfahan e noutros locais, tornando-se, na prática, cúmplice dos agressores", afirmou.

Bagaei sustentou que as atuais críticas de Paris decorrem de interesses políticos franceses e acusou o ministro francês de despertar seletivamente a sua consciência para "dar lições aos iranianos sobre direitos humanos".

As declarações de Barrot surgiram após a relatora da ONU para o Irão, Mai Sato, juntamente com outros peritos daquela organização, terem solicitado que o memorando de entendimento anunciado entre os Estados Unidos e o Irão abordasse a situação dos direitos humanos no país, onde continua a repressão contra civis.

Os especialistas lamentaram que o memorando se concentre quase exclusivamente na retirada militar, na reabertura do Estreito de Ormuz, nos compromissos nucleares e noutras questões estratégicas, enquanto o povo iraniano, "que sofreu enormemente tanto com a agressão militar externa como com a repressão interna, pouco é mencionado neste acordo".

Denunciaram ainda que "desde o início do conflito, no final de fevereiro, as autoridades iranianas têm agido com dureza contra a dissidência", com milhares de detidos e pelo menos 42 executados sob acusações relacionadas com espionagem e segurança nacional.

O Irão foi palco de protestos antigovernamentais maciços em janeiro passado, que foram brutalmente reprimidos, fazendo mais de 3.100 mortos, segundo a versão oficial. No entanto, as organizações não-governamentais (ONG) da oposição, como a HRANA, sediada nos EUA, elevam o número de mortos para mais de 7.000.

As autoridades iranianas, que classificaram as manifestações como "tumultos" e "atos terroristas" orquestrados por Israel e pelos EUA, executaram até ao momento pelo menos 20 manifestantes.


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