Por LUSA
Ao discursar em Genebra na 61.ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que hoje arrancou na cidade suíça, o ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodríguez, condicionou, porém, o diálogo com Washington à obrigatoriedade de existir um respeito mútuo.
Rodríguez lembrou que a crise humanitária em Cuba é consequência do que Havana designa como um "cerco energético", resultante da ação militar norte-americana na Venezuela e da decisão de Washington de ameaçar com tarifas os países que exportem petróleo para a ilha caribenha, e que pode ser evitada.
"Pode uma grande potência permitir-se tentar destruir uma pequena nação, provocar uma tragédia humanitária, arrasar a sua cultura nacional. (...) Tudo isso sob o grosseiro pretexto da segurança nacional?", questionou o chefe da diplomacia cubana, que também participou hoje em Genebra numa Conferência da ONU sobre Desarmamento.
Nesse ponto, reconheceu que a situação criada pelos Estados Unidos em relação a Cuba provocará "privações e sofrimentos", embora tenha manifestado confiança em que serão encontradas "soluções criativas" para mitigar os danos humanitários.
Contudo, na mesma intervenção, o ministro assegurou que "existe igualmente disponibilidade para um diálogo com os Estados Unidos", sublinhando que este deverá basear-se "no Direito internacional, no respeito mútuo, no benefício recíproco, sem pré-condições nem ingerência nos assuntos internos".
Rodríguez indicou que o objetivo deverá ser "alcançar uma relação civilizada no quadro das diferenças" entre os dois países "e até promover a cooperação".
Numa passagem do seu discurso, o ministro cubano saudou a "resistência comunitária do povo do Minnesota", numa referência às manifestações contra a política de imigração do Governo federal norte-americano e às ações da polícia de imigração, conhecida como ICE.
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou o embargo norte-americano à ilha, em vigor desde 1962, e tem pressionado outros países a cessarem o envio de petróleo para Cuba.
A ilha, igualmente fragilizada pelo fim do fornecimento de crude por parte da Venezuela, enfrenta graves carências de combustível e cortes de eletricidade.
"Os Estados Unidos impõem agora um bloqueio energético e pretendem provocar uma catástrofe humanitária, utilizando como pretexto a afirmação absurda de que Cuba constituiria uma ameaça invulgar e extraordinária para a sua segurança nacional", insistiu o chefe da diplomacia cubana.
Esta "escalada agressiva", considerada "criminosa e ilegal", constitui, segundo Rodríguez, "uma punição coletiva implacável infligida ao povo cubano".
No final de janeiro, um decreto norte-americano assinado por Trump qualificava a ilha como uma "ameaça extraordinária" para os Estados Unidos.
"Cuba não ameaça os Estados Unidos nem qualquer outro país, Cuba não é o país que aplica a Doutrina Monroe em matéria de segurança e defesa nacionais com um objetivo de dominação, nem aquele que mobiliza forças militares e viola a soberania e a integridade territorial de outros Estados", insistiu o chefe da diplomacia cubana.
A Doutrina Monroe, de 1823, tem sido mencionada pela administração Trump para reclamar a primazia política e estratégica no hemisfério ocidental.
"Permanecer impassível perante estas tentativas de impor uma tirania mundial coloca em perigo todos os Estados, sem exceção", sublinhou o ministro cubano, apelando aos países participantes na Conferência da ONU sobre Desarmamento para criarem "uma aliança internacional ampla e sólida".
"É urgente que a Conferência assuma plenamente as suas responsabilidades, sobretudo num contexto mundial cada vez mais perigoso e complexo", acrescentou.
Cuba, reiterou, "não está disposta a ceder às ameaças nem a renunciar à (sua) autodeterminação. Cuba não ataca ninguém, mas defenderá firmemente a sua soberania e independência. Impediremos uma crise humanitária em Cuba, mesmo que isso nos custe duras provações e sofrimentos", afirmou.
Na semana passada, o Presidente norte-americano considerou que Cuba é uma "nação falida", instando o seu território vizinho e adversário ideológico a alcançar um acordo, ao mesmo tempo que afastou a hipótese de uma operação destinada a derrubar o regime de Havana.
No passado dia 13 de fevereiro, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou-se "extremamente preocupado" com o agravamento da situação socioeconómica em Cuba.

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