terça-feira, 5 de novembro de 2019

Ex-Presidente da República de Cabo Verde diz que país ainda paga o "custo" da luta armada

Pedro Pires, ex-Presidente de Cabo Verde falou sobre o país, mas também sobre a situação que se vive na Guiné-Bissau, que considera ainda estar a ter problemas na passagem a estado soberano


O ex-Presidente cabo-verdiano Pedro Pires considerou esta terça-feira que a Guiné-Bissau ainda paga o “custo da luta armada que fez”, na influência política nas Forças Armadas e lamentou que “as melhores lideranças” não tenham podido chegar ao poder.

“Acompanho o que acontece na Guiné-Bissau, acompanho as evoluções, discuto por vezes com as pessoas, procuro compreender as causas. Por vezes, tenho impressão que a Guiné-Bissau paga até agora o custo da luta armada que fez, criou umas Forças Armadas com influência política, depois dificuldades de afastar as Forças Armadas de decisões políticas. Há vários fatores que se entrecruzam e tornam a liderança e a gestão do país mais complicada”, apontou Pedro Pires.

A posição foi assumida pelo antigo chefe de Estado cabo-verdiano (2001 a 2011) em entrevista à Lusa a propósito do último “Relatório sobre a Governação Africana da Fundação Mo Ibrahim”, instituição que lhe atribuiu o Prémio de boa governação em 2011.

A Guiné-Bissau vive um momento de grande tensão política e de violência, tendo neste momento dois governos e dois primeiros-ministros. O Presidente guineense, José Mário Vaz — que por sua vez é recandidato ao cargo nas eleições presidenciais de 24 de novembro —, deu posse no dia 31 de outubro a um novo Governo, liderado por Faustino Imbali, depois de ter demitido o executivo liderado por Aristides Gomes em 28 de outubro, e afirmou no domingo que a sua decisão “é irreversível”.

Na mesma entrevista à Lusa, o antigo Presidente Pedro Pires admitiu ter “relações muito especiais de afetividade” com a Guiné-Bissau, países (juntamente com Cabo Verde) que partilharam o processo de luta anticolonial.

“Acompanho a situação, essa transição na Guiné-Bissau tem sido difícil, transição de colónia para país soberano, a construção do Estado soberano, depois a transição de regime monopartidário para regime pluripartidário, são transições que exigem também gestão, as lideranças têm de fazer a gestão de modo a conseguir aderir, integrar toda a gente. Por vezes isso não acontece”, apontou, alertando ainda para um dos “fatores externos” que vai ameaçando a estabilidade do país.

“Por exemplo, na Guiné-Bissau toda a gente fala de um fator externo complicado que é o narcotráfico. São vários elementos que conduzem a uma maior complexidade da gestão da governação”, disse um dos heróis da guerra da independência do país, ao lado de Amílcar Cabral.

A diversidade étnica e cultural do país, sublinha, é “outro aspeto” a levar em conta na Guiné-Bissau. “Nessa base não estou em condições de condenar, de apontar o dedo a alguém, o mesmo esforço é no sentido de compreensão neste momento do que se passa, será possível? Acredito que, apesar das dificuldades atuais, das tensões políticas atuais, que os guineenses vão encontrar o caminho. Não têm tido sorte na questão das lideranças, e as melhores lideranças não têm podido chegar ao poder. Vamos ver se é desta”, enfatizou Pedro Pires.

O relatório da Fundação Mo Ibrahim, lançado em outubro, tem como objetivo avaliar o progresso em termos da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS, Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas) e da Agenda África 2063, entre outras prioridades.

A Fundação, que baseou este estudo nos dados do Índice Ibrahim de Governação Africana (IIAG), concluiu que “os institutos de estatísticas nos países africanos em geral sofrem de falta de recursos financeiros” e de apoio dos governos.

Segundo o documento, quase metade das metas da Agenda 2063 – definida pela União Africana – não é diretamente quantificável e menos de 20% não possui um indicador para medir progressos.


Mais de metade dos tipos de fontes de dados sobre os indicadores dos ODS em África correspondem a estimativas ou estudos internacionais e apenas um terço das fontes de dados são de fontes diretas nacionais, refere o estudo.

observador.pt

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