Por LUSA 04/02/2026
No seu relatório anual, hoje divulgado, a organização não-governamental (ONG) considera que as salvaguardas e proteções dos direitos humanos em todo o mundo "têm sido devastados pelo Presidente dos Estados Unidos", Donald Trump, e pelo crescente autoritarismo, e pede às democracias que formem "uma aliança estratégica para preservar a ordem internacional baseada em regras".
É preciso "conter a onda autoritária que varre o mundo", pediu o diretor executivo da HRW, Philippe Bolopion, citado no relatório, no qual acrescentou que esse "é o desafio de uma geração".
De acordo com o documento, "os recentes abusos dos EUA -- desde os ataques à liberdade de expressão até à deportação de pessoas para países terceiros onde podem sofrer tortura -- mostram o ataque do governo ao Estado de direito".
As ações da administração Trump, somadas aos "esforços de longa data" da China e da Rússia para enfraquecer a ordem global baseada em regras, "têm enormes repercussões em todo o mundo", afirmou a organização.
Para inverter a tendência, defendeu o diretor executivo da HRW, é preciso que os governos que ainda valorizam os direitos humanos, em conjunto com os movimentos sociais, a sociedade civil e as instituições internacionais, formem "uma aliança estratégica".
Para a HRW, a situação foi impulsionada sobretudo pelos EUA e, em particular, por Donald Trump, que "reduziu a responsabilização do governo, atacou a independência judicial, desrespeitou ordens judiciais, cortou drasticamente a ajuda alimentar e subsídios de saúde, revogou os direitos das mulheres, obstruiu o acesso ao aborto, minou as medidas de reparação por danos raciais, retirou as proteções às pessoas trans e intersexo e corroeu a privacidade", além de "ter usado o poder do governo para intimidar adversários políticos, meios de comunicação social, escritórios de advogados, universidades, a sociedade civil e até mesmo comediantes".
Também a política externa da administração Trump é criticada pelo diretor executivo da HRW.
"Alegando um risco de 'apagamento civilizacional' na Europa e apoiando-se em estereótipos racistas para retratar populações inteiras como indesejáveis nos EUA, a administração Trump adotou políticas e retórica que se alinham com a ideologia nacionalista branca", disse Bolopion.
A política externa de Trump "subverteu os fundamentos da ordem internacional baseada em regras que procura promover a democracia e os direitos humanos. Trump vangloriou-se de não precisar do direito internacional como restrição, apenas da sua própria moralidade", acusou ainda.
O líder do país que costumava ser descrito como a maior democracia adotou uma conduta de "flagrante desrespeito pelas obrigações dos EUA em matéria de direitos humanos", lamentou o responsável da organização, apontando também o afastamento drástico de Washington da promoção dos direitos humanos.
"O governo [de Trump] cancelou abruptamente quase toda a ajuda externa dos EUA, incluindo o financiamento para ajuda humanitária vital e retirou os EUA de instituições multilaterais essenciais para a proteção global dos direitos humanos, incluindo o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas e o Acordo de Paris sobre o Clima", criticou Philippe Bolopion.
O enfraquecimento das instituições multilaterais por parte dos EUA representou também um sério golpe nos esforços globais de prevenção ou interrupção de crimes internacionais graves.
Foi o caso do Darfur, onde, há 20 anos, os EUA e a sociedade civil foram fundamentais para galvanizar uma resposta às atrocidades em massa, sendo que, agora, "o Sudão está novamente em chamas, mas, desta vez, com relativa impunidade".
Foi o caso também dos Territórios Palestinianos Ocupados, onde "as forças armadas israelitas cometeram atos de genocídio, limpeza étnica e crimes contra a humanidade, matando mais de 70.000 pessoas" desde os ataques liderados pelo Hamas contra Israel, em outubro de 2023, e deslocando a grande maioria da população de Gaza.
"Estes crimes receberam uma condenação global desigual, e Trump continuou uma política de longa data dos EUA de apoio quase incondicional a Israel, mesmo enquanto o Tribunal Penal Internacional avaliou alegações de genocídio", afirmou a ONG.
Foi ainda o caso na Ucrânia, onde "os esforços de paz de Trump têm consistentemente minimizado a responsabilidade da Rússia por graves violações" e, em vez de exercer uma pressão significativa sobre o Presidente russo, Vladimir Putin, para que ponha fim a estes crimes, "Trump repreendeu publicamente o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, exigiu um acordo exploratório de minerais, e pressionou a Ucrânia a ceder grandes extensões de território, além de propor uma 'amnistia total' para os crimes de guerra".
Com os EUA a virarem costas aos direitos humanos, alguns dos países que poderiam ter liderado a luta para os preservar foram enfraquecidos por forças internas iliberais, prosseguiu Philippe Bolopion, citado no documento que faz uma retrospetiva dos direitos humanos no último ano.
Os países são também impedidos pelo receio de antagonizar os EUA e a China, e muitos consideram os direitos humanos e o Estado de direito como um obstáculo, em vez de um benefício, à segurança e ao crescimento económico, de acordo com a HRW.
Face a tal cenário, a organização internacional e o seu diretor executivo apelam à união dos Estados que valorizam os direitos humanos para que possam "tornar-se uma força política poderosa e um bloco económico substancial".
Leia Também: UE tolerou declínio do Estado de direito e prejudicou migrantes, diz HRW
A Human Rights Watch (HRW) acusou hoje, no relatório anual da organização, as instituições da União Europeia de terem tolerado o declínio do Estado de direito em 2025 e de adotarem regras que prejudicaram os direitos dos migrantes.


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