© Shutterstock Inês Morais Monteiro noticiasaominuto.com 24/02/2026
O que poderá explicar a falta de vontade ou receio da mulher no momento de ter relações sexuais?
Durante muitos anos a saúde mental, bem como a vaginal, foram colocadas numa posição frágil e parcialmente esquecida. Desde então, a tendência para explicar determinados fenómenos do corpo feminino é também pouco informada.
Os parceiros reclamam e, inevitavelmente, este tende a ser mais um tabu nas relações, ou nalguns casos, desconhecimento de ambas as partes.
Numa entrevista exclusiva para a rubrica O Médico Explica do Lifestyle ao Minuto, falámos com Isabel Hermenegildo, a presidente da Comissão de Ginecoestética da Sociedade Portuguesa de Medicina Estética.
Esta especialista em ginecoestética desdobrou o estigma associado a essa "falta de vontade das mulheres" e explicou que este se prende, na verdade, com uma condição que pode afetar tanto a vida íntima, como emocional e relacional de muitas mulheres: O vaginismo.
Atualmente, segundo o DSM-5, este problema integra a categoria de “Perturbação de Dor Genito-Pélvica/Penetração”, isto é, é reconhecido como uma disfunção sexual com componentes físicos e psicológicos.
A incidência real do número de pessoas que sofre desta patologia, segundo Isabel Hermenegildo é difícil de determinar, visto que "muitos casos não são diagnosticados".
Em Portugal, cerca de 6,6% das mulheres relataram sintomas compatíveis com vaginismo em inquéritos sobre função sexual. "É um número provavelmente subestimado" desta "condição complexa em que corpo e mente dialogam de forma intensa", acrescenta.
Causas do vaginismo
Entre as causas físicas estão:
- Infeções vaginais recorrentes
- Endometriose
- Secura vaginal
- Cicatrizes (episiotomia, cirurgia pélvica)
- Vulvodínia ou vestibulodínia
- Défices hormonais (estrogénio/testosterona)
- Malformações congénitas
Entre os fatores psicológicos e emocionais:
- Medo da dor
- Ansiedade associada à penetração
- Educação sexual repressiva ou culpa
- Experiências sexuais negativas ou trauma
- Stress relacional
- Falta de informação anatómica
Leia abaixo a entrevista completa.
O que é o vaginismo?
O vaginismo é uma disfunção sexual caracterizada pela contração involuntária dos músculos do pavimento pélvico, sobretudo do músculo pubococcígeo, quando há tentativa de penetração vaginal. Essa contração não é voluntária, acontece de forma reflexa, mesmo quando a mulher deseja a penetração.
Pode provocar dor, ardor ou tornar impossível a introdução de pénis, dedos, tampões ou mesmo do espéculo ginecológico.
Quais são as causas do vaginismo?
As causas são geralmente multifatoriais, combinando fatores físicos, psicológicos e sociais.
Entre as causas físicas estão as infeções vaginais recorrentes, endometriose, secura vaginal, cicatrizes (episiotomia, cirurgia pélvica), vulvodínia ou vestibulodínia, défices hormonais (estrogénio/testosterona), malformações congénitas
Já entre os fatores psicológicos e emocionais estão o medo da dor, a ansiedade associada à penetração, uma educação sexual repressiva ou culpa, experiências sexuais negativas ou trauma, stress relacional e falta de informação anatómica
Há diferentes tipos de vaginismo? Quais são as diferenças?
Sim. Existe o primário (a mulher nunca conseguiu ter penetração desde o início da vida sexual) e o secundário (surge após um período em que a penetração era possível e indolor).
Quanto à extensão do vaginismo, pode ser total ou global (a penetração é impossível), parcial (a penetração é possível, mas dolorosa) ou situacional (ocorre apenas em determinadas circunstâncias ou com determinados estímulos).Há ainda classificações por grau de severidade, que ajudam a orientar o tratamento.
Quão comum é o vaginismo entre mulheres?
A incidência real é difícil de determinar, porque muitos casos não são diagnosticados. Em Portugal, cerca de 6,6% das mulheres relataram sintomas compatíveis com vaginismo em inquéritos sobre função sexual. É um número provavelmente subestimado.
Quem tem mais probabilidade de ter vaginismo?
Pode surgir na adolescência ou início da idade adulta. Estudos clínicos indicam início por volta dos 19 anos, com uma parte significativa antes dos 18 anos.
Mas também pode aparecer mais tarde, após parto, cirurgia, infeção dolorosa, experiência sexual traumática, procedimentos urogenitais dolorosos, radioterapia ou quimioterapia. Ou seja, não é uma condição exclusiva da juventude.
E nas mulheres mais jovens acontece porquê?
Nas mais jovens, é frequentemente associado a:
Medo da dor na primeira relação
Falta de educação sexual clara
Crenças negativas ou culpabilizantes sobre sexualidade
Ansiedade antecipatória
Trauma sexual, educação repressiva, culpa associada à sexualidade e ansiedade intensa são fatores reconhecidos como possíveis desencadeadores.
Mas nem todas as mulheres com esses antecedentes desenvolvem vaginismo. É sempre um fenómeno multifatorial.
Porque é que as mulheres demoram a procurar ajuda?
Ainda é tabu. Muitas mulheres sentem vergonha, outras acreditam que seja normal doer. Também há quem pense ser caso único e evita exames ginecológicos por medo. No entanto, o silêncio acaba por prolongar o sofrimento.
As redes sociais ajudam ou atrapalham, no que respeita a este tema e sobre saúde sexual feminina?
Podem ajudar ao normalizar o tema e na partilha de experiências. Ver outras mulheres a falar sobre isso reduz o isolamento. Mas também podem desinformar, simplificar em excesso ou promover soluções milagrosas que não substituem acompanhamento clínico. Como em quase tudo, informação qualificada faz toda a diferença.
Como é feito o diagnóstico? Existem exames específicos?
O diagnóstico baseia-se em história clínica detalhada (médica, psicossocial e sexual), entrevista sobre sintomas e contexto, e exame ginecológico suave, quando tolerável. Não existe um exame específico único que detete vaginismo. O diagnóstico é clínico.
Como o vaginismo afeta a vida sexual?
Pode impedir completamente a penetração ou torná-la dolorosa.
Como consequências frequentes, as mulheres podem sentir frustração, evitar a intimidade, conflito relacional, sentimento de falha ou inadequação, e ansiedade crescente associada ao sexo.
Em alguns casos, é também causa de casamento não consumado.
O vaginismo tem cura?
Sim, tem tratamento e, na maioria dos casos, tem resolução.
Quanto tempo, em média, demora o tratamento?
A duração varia consoante a gravidade, causas associadas e adesão ao tratamento. Pode demorar semanas ou vários meses. Casos mais complexos ou refratários podem exigir intervenções adicionais.
Quais são os tratamentos mais eficazes?
O tratamento é sempre multidisciplinar, não é um problema para resolver só no consultório do ginecologista.
Pode envolver médico especialista em dor pélvica, ginecologista, psicoterapeuta e fisioterapeuta do pavimento pélvico. As estratégias incluem terapia cognitivo-comportamental, reabilitação do pavimento pélvico, treino de controlo muscular, dessensibilização vaginal gradual com dilatadores, e em casos selecionados, toxina botulínica.
O parceiro deve participar de alguma forma no processo terapêutico?
Idealmente, sim. O tratamento deixa de ser um problema da mulher e passa a ser um processo partilhado. A participação do parceiro pode ajudar a reduzir a ansiedade, melhora a comunicação entre o casal, aumenta a compreensão mútua e diminui a pressão associada à penetração.

Sem comentários:
Enviar um comentário