© Getty Images Por LUSA 24/02/2026
Embora conserve ogivas suficientes para desempenhar um papel de destaque na diplomacia nuclear, "tudo o que está abaixo disso não tem nada a ver com uma grande potência", limitando-se a "explorar o sentimento de medo nos seus inimigos", defende, em entrevista à Lusa, o professor de política internacional na universidade pública militar de Bundeswehr, em Munique, no dia em que se assinalam quatro anos da invasão russa da Ucrânia.
Num momento em que as autoridades de Moscovo se debatem com o impasse militar no país vizinho e baixas acima de um milhão de soldados, além de danos severos na sua economia de guerra, em qualquer circunstância o Kremlin "controla a mensagem" no su país, segundo o autor do livro "Se a Rússia Vencer -- Um Cenário", que hoje é lançado pela Pinguin em Lisboa.
Apesar do impasse no campo de batalha e da incerteza nas negociações de paz trilaterais promovidas pelos Estados Unidos, o politólogo observa que os líderes europeus não podem perder a noção de que a Rússia persegue "ambições imperialistas" e "a destruição da NATO", num objetivo que não se encerra com a guerra na Ucrânia, o que alimenta o enredo do seu livro.
Na obra, o autor cria um cenário com base na sua experiência académica, e em linha com análises de serviços de informação ocidentais, para sustentar o perigo de uma nova agressão russa, três anos após uma suposta capitulação da Ucrânia e cedência dos territórios reivindicados por Moscovo, devido à fadiga de guerra e falta de apoio militar.
O cenário proposto implica a invasão de uma pequena cidade, Narva na Estónia, sob pretexto de proteção da minoria russa no país báltico, como forma de testar uma reação da NATO, que não consegue reunir consenso para aplicar o seu artigo 5.º sobre proteção mútua e deixa o Governo de Tallinn por sua conta.
Para este desfecho, contribui a falta de empenho da Casa Branca e o argumento de arriscar a Terceira Guerra Mundial por uma pequena cidade báltica, mas também manobras de diversão da China nas Filipinas e de vagas de migrantes de africanos no Mediterrâneo, ambas promovidas por Moscovo, que levam ao desvio de atenções e meios militares das forças da NATO.
Apesar de a cronologia dos acontecimentos parar em Narva, o investigador, que lidera o Centro de Estudos de Informações e Segurança da Universidade de Bundeswehr e foi vice-diretor de pesquisa do Colégio de Defesa da NATO, em Roma, avisa que a incapacidade da Aliança Atlântica em responder a uma agressão contra um seu membro, mesmo que pequena, seria já uma vitória para a Rússia.
Quando começou a escrever o livro, na primavera do ano passado, já havia "relatórios dos serviços de informação militares a dizer que os russos teriam até 2029 um exército suficientemente forte para travar uma guerra contra um país da NATO, se fosse politicamente desejado".
Em reação, recorda que houve muitas críticas a esta avaliação e argumentos de que "a Rússia não é assim tão estúpida para atacar a NATO", devido justamente ao artigo 5.º e incapacidade de progredir nas frentes ucranianas.
"Mas talvez estivéssemos todos a olhar para tudo isto de uma forma errada, talvez não se tratasse de atacar um país da NATO, mas apenas colocar a NATO em teste", lembra Carlo Masala, assinalando que, no caso do cenário apresentado, o teste russo acabaria por resultar no "colapso da Aliança".
Como condição para este panorama, o autor observa o apoio atual e real dos Estados Unidos à cedência do Donbass, no leste da Ucrânia, no âmbito de um acordo de paz proposto pela Casa Branca, em benefício do líder do Kremlin, Vladimir Putin, ainda que longe das metas maximalistas proclamadas em 2022 de tomar o país e depor o regime de Zelensky.
"Os objetivos mudam durante uma guerra e, quando se tem um sistema totalitário, é possível controlar as mensagens enviadas ao povo", adverte o investigador, insistindo que o controlo total do Donbass "seria vendido na Rússia como uma vitória", na medida em que "não precisaram ceder um centímetro nas negociações e ainda exigem eleições na Ucrânia e nada de tropas europeias no terreno" para vigiar um cessar-fogo. Em suma, "a guerra é um desastre, mas podem apresentá-la como querem".
Ainda que resista e, num cenário limite oposto ao que propõe na sua obra, isto é, se a Ucrânia conseguir um acordo aceitável e vencer, Carlo Masala duvida que Moscovo "se mantenha quieta por muito tempo", após ter perdido o seu espaço de influência em países como a Venezuela, a Síria e possivelmente o Irão.
"A Europa é o último campo de ação de que dispõem. E como a Rússia quer recuperar a sua grandeza, é de esperar que se tornem ainda mais duros", prevê o académico, ao mesmo tempo que duvida da possibilidade do colapso da economia russa, embora estagnada e sob efeito de inflação elevada, devido ao esforço de guerra, associado ao peso das sanções internacionais e redução drástica das receitas petrolíferas.
Os Estados totalitários "têm mais possibilidades de oprimir o povo, mesmo que a economia seja má, do que as democracias", adverte, dando como exemplo uma subida inesperada do IVA em 2%, deliberado pelo Governo de Moscovo "da noite para o dia", e que "num país como a Alemanha e presumivelmente Portugal levaria de imediato as pessoas para a rua em protesto, mas não na Rússia, porque toda a gente sabe que haverá repressão".
"Por isso, não vejo que nem a pressão económica nem a situação no campo de batalha possam mudar alguma coisa com Putin", afirma, a não ser que os indicadores se degradem a tal ponto que o próprio círculo do Presidente russo entendam que é melhor substitui-lo: "Mas isso não posso especular porque não sou criminólogo", ironiza.
Por outro lado, a Rússia continua a ter uma aliança com a China, "que visa basicamente alterar a ordem internacional", se bem que reduzida à condição de parceiro subalterno ou "bomba de gasolina de baixo custo" dos chineses, como se ironiza no livro, em alusão à venda de crude barato a Pequim como forma de contornar as sanções ocidentais.
"Os russos não têm outra escolha, é essa a questão", refere o politólogo, a propósito da sua dependência da China, cuja diplomacia nunca condenou a invasão da Ucrânia.
Mas as diferenças entre os seus países são enormes, avalia, tomando emprestada uma definição que ouviu nos meios das relações internacionais em que os chineses "são alterações climáticas e adaptam-se" e os russos "um tsunami destruidor", que uma vez passado pode dar lugar à reconstrução.
Em relação à Ucrânia, os líderes russos favorecem o diálogo com os Estados Unidos, insistindo num estatuto de "grande poder com grande poder", desprezando os países europeus como "potências de segundo escalão".
"Acho muito engraçado que as pessoas pensem que, se os europeus forem a Moscovo, a guerra na Ucrânia terá terminado", comenta o investigador, mas o mais certo seria "o Kremlin recebê-los todos, e até com grande espetáculo, mas nada vai mudar".
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A garantia foi deixada esta terça-feira, dia em que se assinalam quatro anos de guerra, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Paulo Rangel espera que seja possível alcançar um acordo de paz este ano.

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