segunda-feira, 24 de abril de 2017

O problema dos Pastores Fulani – Crise étnica ou terrorismo?


O problema que tem resurgido em larga escala, apesar de silenciado, com os pastores Fulani no sul do estado de Kaduna, tem levado a várias intervenções quer da polícia quer do exército sem, no entanto, aparente sucesso. As matanças continuam a acontecer em Kaduna, mas não só, com pastores Fulani a atacar os residentes nativos daquele Estado, apesar da presença das forças de segurança.

Na semana passada, “uma mulher foi morta a tiro in Bakin Kogi, uma aldeia no sul de Kaduna. Ela estava a trabalhar no campo quando um grupo de alegados pastores Fulani apareceu e abateu-a”. Esta foi a narração que o líder da aldeia fez sobre o incidente. Ele alegou que desconhece se o governo está ou não ciente do problema.

Um líder da aldeia, que preferiu permanecer anónimo, por medo de represálias do governo como destituí-lo ou mandá-lo para a prisão, mencionou que “a população do sul de Kaduna tem vindo a desaparecer, toda a gente tem tido cuidado nas suas deslocações. Esta é a realidade do que se está a passar aqui”.

Os pastores Fulani têm há vários anos vindo a atacar comunidades na Nigéria – em alguns casos conduzindo as suas manadas por quintas e pastos – o que levou a confrontos com os pastores e agricultores locais. Este problema tem reclamado centenas de vidas e danos em propriedade que se julga nos milhões de dólares.

Este problema levou também a que muitos populares se tornem deslocados internos dentro do próprio país, tendo sido afastados das suas propriedades e das suas aldeias.

O sul de Southern, no centro norte da Nigéria é a área mais atingida pelos sucessivos ataques dos pastores Fulani. Ao longo dos últimos anos mais de 400 pessoas já perderam a vida, nesta área apenas, de acordo com o grupo sócio-político da região, a Associação das Pessoas do sul de Kaduna (SOKAPU – sigla inglês).

De acordo com o Index do Terrorismo Global 2016-17, publicado pelo Instituto de Economia e Paz, a Nigéria é o 10º país mais afectado pelo terrorismo, quando contabilizados quatro factores durante um período de 10 anos (2006-2016), nomeadamente, (a) número total de incidentes terroristas; (b) número total de fatalidades causadas pelo terrorismo; (c) número total de feridos causados pelo terrorismo; e (d) nível aproximado de dados patrimoniais caudados pelo terrorismo.

Os pastores Fulani estão classificados com segundo grupo, atrás do Boko Haram, entre os quatro grupos terroristas existentes na Nigéria. De acordo como a Global Terrorism Database, os pastores Fulani encontram-se classificados em quarto lugar entre os grupos terroristas do mundo em relação à escala e intensidade dos seus ataques.

Numa entrevista à e-global, o Presidente da SOKAPU, Solomon Musa, disse que quase diariamente ocorrem ataques nas zonas das matas, acrescentando que muitos agricultores não conseguem deslocar-se às suas propriedades devido ao medo de sofrerem ataques; “Eles vão a quintas que tenham segurança privada”, acrescentou.

As actividades económicas tem estado paradas e as instituições de ension superior fechadas. “O governo estadual ainda não proporcionou segurança nas universidades que foram fechadas devido à insegurança e reabrir aquelas foram atacadas pelos alegados pastores Fulani”. “A Universidade Estadual de Kaduna, Campus de Kafanchan e a Faculdade de Educação encontram-se fechadas desde Dezembro de 2016 devido à insegurança e a vários ataques de alegados pastores Fulani”, afirmou.

O Secretário da Associação Cristã da Nigéria, para a área do governo local de Jema’a em Kaduna, Sunday Buru, que vive na área, também confirmou os ataques, apesar da relativa calma da região.

A polícia recentemente deslocada para a área, alega falta de armamento, tornando dificil para os agentes policiais conter muitas das situações que ocorrem.

Um dos agentes policiais, que falou sobre cobertura de anonimato à e-global, disse que “os vencimentos que já acumulam em cerca de 20,000 nairas, também não foram pagas. Porque é que devemos arriscar as nossas vidas confrontando os Fulani que tem melhores armas que nós?”

O porta-voz da polícia, Jimoh Moshood, negou, no entanto, as alegações, negando qualquer fundo de verdade nelas, assegurando que os agentes policiais destacados para o sul de Kaduna, fazem parte de uma unidade especial de polícia, treinados na Bielorússia em operações sniper, peritos em lança-granadas e com o curso de Rangers, entre outros. “Estes polícias conhecem as regras, são muito disciplinados e têm-lhes sido pagos todos os vencimentos”, disse ainda.

As tácticas e a natureza dos ataques levados a cabo pelos pastores Fulani surgerem que estes elementos têm frequentado formação militar.

Um activista na região, Sunday Kege, disse “tudo aponta para que o Governador Nasir El-Rufai seja o principal apoiante destes ataques dos pastores Fulani. Ele aliás até já confessou, porque é que o governo de Buhari ainda não o prendeu? Só porque ele é o Governador?” questinou.

O activista chama também à atenção da Assembleia Nacional da Nigéria para que promova uma alteração constitucional na secção que proibe que individuos que ocupam cargos de governador não podem ser acusados em processos crime. Segundo este activista “esta é a única forma de prender governadores criminosos como El-Rufai”.

Iliya Kure, corrrespondente na Nigéria (Kaduna)

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