Tem-se propalado, em certos círculos políticos, que o fim do período de transição na Guiné-Bissau marcará também o fim político de Ilídio Vieira Té, actual Primeiro-Ministro e Ministro das Finanças. Trata-se de uma leitura precipitada, injusta e politicamente míope.
Ilídio Vieira Té não chegou à chefia do Governo em circunstâncias normais. Assumiu responsabilidades num dos momentos mais delicados da vida nacional, após os acontecimentos de 26 de Novembro, quando o país enfrentava condenações externas, incerteza institucional, retração dos parceiros e um ambiente de desconfiança generalizada. Muitos teriam hesitado. Outros teriam procurado desculpas. Ilídio Vieira Té aceitou a missão com coragem patriótica.
É verdade que a composição inclusiva do Governo de Transição não foi uma criação pessoal sua. Mas também é verdade que ele respeitou essa realidade, assumiu-a e deu-lhe direcção política e administrativa. Com os pés bem assentes na terra, começou a “arrumar os cantos da casa”, impondo disciplina, contenção, controlo e rigor onde antes havia dispersão, excesso e desorganização.
No plano financeiro, reforçou o controlo da execução orçamental, estimulou a arrecadação das receitas fiscais e manteve diálogo responsável com as instituições de Bretton Woods, nomeadamente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Não se limitou a gerir a crise: procurou demonstrar que, mesmo em contexto difícil, o Estado podia funcionar com seriedade.
No plano administrativo, impôs restrições à circulação abusiva de viaturas do Estado e promoveu a regularização nacional das viaturas em circulação, com pagamento de seguros, fundo rodoviário, inspeção e demais documentos exigidos pelas autoridades competentes. São medidas que podem parecer simples, mas que representam uma ideia essencial: o Estado deve começar por dar o exemplo.
Perante a crise no Médio Oriente e os riscos de impacto sobre os preços internacionais, criou mecanismos de acompanhamento para prevenir ruturas no abastecimento de combustíveis e gás, evitando que o país ficasse paralisado. Ao mesmo tempo, reduziu drasticamente despesas consideradas não essenciais, sem abandonar sectores prioritários como saúde, educação e fornecimento de água potável.
Estas medidas não foram cosméticas. Foram medidas de sobrevivência nacional.
E os parceiros repararam. Lentamente, mas de forma consistente, a percepção externa começou a mudar. O Banco Mundial, o FMI, a UEMOA, o Banco Africano de Desenvolvimento e outros parceiros passaram a reconhecer sinais de disciplina, responsabilidade e capacidade de gestão. A confiança não se recupera com discursos; recupera-se com actos. E foi isso que Ilídio Vieira Té fez.
Por isso, a pergunta impõe-se: quem foi o principal obreiro desta viragem?
A resposta é clara: Ilídio Vieira Té.
Naturalmente, a Guiné-Bissau entrará numa nova fase política. Poderão surgir novas configurações de poder, novas alianças e novas lideranças institucionais. Mas seria um erro grave imaginar que Ilídio Vieira Té deve simplesmente desaparecer do xadrez político nacional.
Pelo contrário. Ele transformou-se. Passou de bom Ministro das Finanças a figura de primeiro plano da governação guineense. Demonstrou capacidade de decisão, sentido de Estado, disciplina administrativa e coragem política num momento em que o país precisava de alguém que não tremesse perante a tempestade.
Os que hoje desejam apagar o seu papel talvez o façam por medo, inveja ou cálculo político. Mas a verdade é que os factos permanecem. E os factos mostram que Ilídio Vieira Té ajudou a salvar o Estado de uma situação extremamente delicada.
O futuro político da Guiné-Bissau não deve ser construído com ingratidão. Deve ser construído com memória, justiça e reconhecimento. Ilídio Vieira Té pode não agradar a todos, mas conquistou um lugar próprio na história recente do país.
E quem conquista esse lugar pelo trabalho, pela coragem e pelo sentido de responsabilidade, não desaparece por decreto de adversários políticos.
Bxo, 07 de Maio de 2026

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