sexta-feira, 10 de abril de 2020

União Africana diz estar "na linha da frente" contra novo coronavírus

Mercado de Nakasero, em Kampala, no Uganda. Vendedores tentam manter o distanciamento face à ameaça da Covid-19. 7 de Abril de 2020. AFP - BADRU KATUMBA

Por: Carina Branco

A União Africana está "na linha da frente" na luta contra a pandemia do novo coronavírus em África. A garantia é dada por Josefa Sacko, comissária para a Economia Rural e Agricultura da União Africana. A prioridade deve ser proteger as zonas rurais para travar o aumento da insegurança alimentar.

“Estamos muito preocupados com esta pandemia no nosso continente. Como sabe, em termos globais, África é o continente mais vulnerável. Nós não temos serviços sanitários para poder conter a infecção e a propagação  do Covid-19. Estamos muito preocupados mas uma vantagem que temos é tirar lições dos outros continentes”, começa por alertar Josefa Sacko, a comissária para a Economia Rural e Agricultura da União Africana, em entrevista à RFI.

Josefa Sacko admite estar “bem assustada com o ritmo das mortes (por Covid-19) na Europa”: “Se a Europa - que é um continente desenvolvido - não tem capacidade de dar resposta a esta pandemia, imagine o drama que poderá acontecer se entrar em África.”

Por isso, a União Africana está na linha da frente na luta contra a pandemia do novo coronavírus em África: “A nível da União Africana estamos na linha da frente para podermos conter a propagação do Covid-19 no nosso continente”, assegura a comissária, explicando que as medidas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde devem ser adaptadas aos diferentes contextos africanos.

“Oitenta por cento da nossa população vive em quintais comuns. Então como é que se vão distanciar? Depois, na África do Oeste, um mundo muçulmano, um mundo polígamo em que o homem tem 4 ou 5 mulheres, os filhos cresceram juntos, como é que vai distanciar?” questiona.

Para já, a União Africana está focada na conjunção de esforços dos diferentes sectores, desde logo da saúde para capacitar as unidades sanitárias com kits de protecção, dos assuntos sociais e humanitários, da ciência e inovação, assim como da agricultura.

Na semana passada, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a Organização Mundial de Saúde e a Organização Mundial do Comércio alertaram para o risco de "escassez de alimentos" no mercado mundial, devido aos distúrbios causados pela pandemia no comércio internacional e nas redes de abastecimento.

Face ao aumento da insegurança alimentar já descrita no ultimo relatório da FAO e antes da chegada da pandemia, Josefa Sacko avisa que é preciso começar por proteger ao máximo as zonas rurais africanas para travar esse aumento da insegurança alimentar.

“Temos que reforçar o nosso sistema alimentar. A África depende da importação de produtos alimentares. Praticamente estamos a 47 biliões de dólares de importação de produtos alimentares”, explica, enfatizando que o novo coronavírus poderá obrigar a "alavancar o comércio inter-africano" e a reforçar o sistema alimentar no continente.

Josefa Sacko sublinha que, para já, “essa doença ainda não chegou ao campo”, pelo que deve haver medidas de “restrição de pessoas e bens para o interior do país, para as zonas rurais”.

“Os ditos pobres são pessoas que produzem 80% do alimento que está na nossa mesa. Se nós estancarmos a doença a nível urbano, podemos controlar a actividade normal no campo. Neste momento, estamos a trabalhar com a FAO para ver como é que podemos dar um aconselhamento aos nossos Estados para podermos assegurar essa segurança alimentar. Esse aconselhamento é no sentido de alavancar o comércio inter-africano", explica.

No dia 15 de Abril, os ministros da Agricultura da União Africana vão reunir-se para falar, nomeadamente, sobre como salvaguardar a produção e distribuição dos produtos alimentares, assim como proteger os agricultores que “não têm dispensários, clínicas e hospitais” para lutar contra o Covid-19.

“Estamos a beber da experiência dos outros para nos podermos proteger melhor porque, graças a Deus, que ainda não atingiu seriamente África porque se entrar aqui com a força que entrou na Europa, não temos capacidade de resposta”, alerta. 

Por isso, Josefa Sacko diz que a União Africana vai tentar encontrar uma estratégia comum para conter e estancar a pandemia em África.

RFI

Foto do arquivo - Vendedores na Guiné-Bissau

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