Por observador.pt 01 abr. 2026 Dulce Neto
O choque com a morte violenta de Vigário Balanta, uma das principais vozes da contestação ao Governo de transição da Guiné-Bissau, foi de tal ordem, que Domingos Simões Pereira rompeu pela primeira vez o seu silêncio público. Contactado pelo Observador, o líder do histórico PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), que está em prisão domiciliária desde 30 de janeiro, depois de 60 dias detido na Segunda Esquadra de Bissau, condenou “com a maior veemência o atentado contra a vida desse jovem” e apelou “a ajuda urgente” para o seu país.
“Ontem ficámos todos devastados com a notícia, e as imagens que a acompanhavam, do assassinato do jovem Vigário Balanta”, começou por dizer o presidente eleito do parlamento da Guiné-Bissau e principal opositor político do regime numa mensagem áudio enviada ao Observador. “Um jovem cujo único crime, pelo menos que eu conheça, foi querer ser cidadão, querer exercer plenamente os seus direitos e participar na construção da sua própria sociedade”, continuou Simões Pereira, que está confinado à sua casa, guardado por 30 homens armados, segundo o seu advogado.
Vigário Balanta, de 35 anos, secretário-geral do Movimento Revolucionário “Po di Terra”, apareceu morto na terça-feira num lugar ermo de Nhacra, a 30 quilómetros da capital. O corpo apresentava sinais claros de violência (cortes na garganta e nos pés, balas de Kalashnikov, cabelos arrancados e areia na cabeça, por exemplo). Foi “espancado até à morte”, disse, em lágrimas, o presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos.
“Este ato bárbaro não é apenas um ataque a um indivíduo, é mais uma tentativa inaceitável de silenciar a voz da cidadania guineense”, avisa Simões Pereira na mensagem remetida ao Observador. “Isso revolta, revolta-nos a todos, revolta todos os amantes da paz e da liberdade”, desabafa. “Não podemos continuar a proclamar interesse em dialogar, em viver em paz, em instabilidade e promover este tipo de atos, atos indignos e que não podem ser normalizados”, sublinha.
Simões Pereira, que foi detido no dia 26 de novembro passado, dia do golpe de Estado que interrompeu o processo eleitoral e colocou no poder uma junta militar, recorda que há dois anos alertava para o facto de a Guiné-Bissau estar “a caminhar para a condição de não-Estado”. Mas a situação excedeu os seus receios. “Hoje, sem a observância de leis, das liberdades fundamentais, dos direitos, do funcionamento das instituições, eu temo que já tenhamos ultrapassado esse limite”, acrescenta numa voz pausada. “Por isso, não tenho nenhuma dúvida que a Guiné-Bissau precisa de ajuda. Precisa da ajuda urgente, antes que a anarquia nos consuma por completo”, conclui.
Polícia Judiciária afirma-se empenhada em encontrar responsáveis
O assassinato indignou os defensores dos direitos humanos que ainda na terça-feira falaram em “execução sumária extra-judicial” no final da conferência internacional sobre direitos e democracia em África que decorreu em Bissau e levou o Governo de transição a emitir um comunicado onde expressava a sua “condenação firme” ao homicídio. O Executivo garantia ter pedido uma investigação célere para o apuramento das circunstâncias da morte do ativista político bem como a identificação e responsabilização dos autores morais e materiais do crime.
Esta quarta-feira, o Governo quis saber como é que estavam a correr as investigações, numa reunião convocada pelo primeiro-ministro Ilídio Vieira Té, em que estiveram presentes o ministro da Administração Interna, o general Mama Saliu Embalo, e os diretores de várias instituições de defesa e segurança do país. No final, a diretora nacional adjunta da Polícia Judiciária disse que força policial “está empenhada, como sempre”, na descoberta dos responsáveis por este “ato bárbaro”.
“Basta de homicídios no país, basta de perda de vidas de inocentes no país”, afirmou Cornélia Té que pretende que a ação da PJ neste caso sirva “de exemplo” de combate à impunidade. A responsável pediu à população que transmita às autoridades quaisquer informações que possam ser úteis à investigação, ao mesmo tempo que apelava à confiança da população “no trabalho da PJ” que irá apresentar “resultados positivos” no final, prometeu.

Sem comentários:
Enviar um comentário