segunda-feira, 27 de abril de 2026

"Esquecemo-nos que uma guerra nuclear não pode ser ganha?", questiona Guterres... O secretário-geral das Nações Unidas (ONU) criticou, esta segunda-feira, o "estado de amnésia coletiva" que se instalou no mundo e que permitiu que as ameaças nucleares voltassem a soar.

Por  SIC Notícias Com Lusa 

Na abertura de uma reunião de países signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) na sede ONU, em Nova Iorque, Guterres alertou que normas arduamente conquistadas estão a erodir-se e o controlo de armas "está a morrer".

"Pela primeira vez em décadas, o número de ogivas nucleares está a aumentar. Os testes nucleares estão de volta à mesa. Alguns Governos estão a considerar abertamente a aquisição destas armas terríveis", afirmou.

"Esquecemo-nos que uma guerra nuclear não pode ser ganha e não deve ser iniciada? Esquecemo-nos que as armas nucleares não tornam ninguém mais seguro? Esquecemo-nos que a única razão pela qual o mundo não mergulhou no abismo foi porque os líderes se uniram e disseram: basta?", questionou o chefe da ONU.

O antigo primeiro-ministro português recordou que, ao longo das décadas, foi desenvolvida uma rede de instrumentos para prevenir o uso, a proliferação e os testes de armas nucleares, e alcançar a sua eliminação total.

"Tratado tem vindo a deteriorar-se"

Guterres considerou o Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares a base destes esforços, um "ponto de encontro para que os países reforcem a segurança comum" e um exemplo de multilateralismo em ação.

"Durante muito tempo, o Tratado tem vindo a deteriorar-se. Os compromissos permanecem por cumprir. A confiança e a credibilidade estão a desgastar-se. Os fatores que impulsionam a proliferação estão a acelerar. Precisamos de revitalizar o Tratado", apelou.

Ao dar a partida do evento em Nova Iorque, Guterres pediu aos Estados-membros que cumpram as promessas no âmbito do Tratado, "sem condições, atrasos ou desculpas", e que reafirmem o compromisso com o desarmamento e a não proliferação como o único caminho verdadeiro para a paz.

Instou ainda a que concordem com as medidas necessárias para prevenir uma guerra nuclear.

No entanto, pediu também que sejam levantadas as bases para a "evolução do Tratado".

"Hoje, a ameaça nuclear é agravada por novos perigos provenientes de tecnologias em rápida evolução, como a inteligência artificial e a computação quântica. O Tratado não é uma relíquia de uma era passada, congelada no âmbar. Deve lidar com a relação entre as armas nucleares e as novas tecnologias", defendeu.

A 11.ª Conferência de Revisão das Partes do Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares vai decorrer em Nova Iorque até ao dia 22 de maio e será liderada pelo embaixador Do Hung Viet, do Vietname.

"O sucesso ou o fracasso desta conferência terá implicações que vão muito além desta sala e muito além dos próximos cinco anos. A perspetiva de uma nova corrida armamentista nuclear paira sobre as nossas cabeças", alertou Viet.

Temas que serão discutidos na conferência

A Conferência de Revisão do TNP de 2026 deverá abordar uma série de questões, incluindo a universalidade do Tratado; o desarmamento nuclear, incluindo medidas práticas específicas; a não proliferação nuclear, incluindo a promoção e o fortalecimento das salvaguardas; medidas para promover os usos pacíficos da energia nuclear, incluindo segurança; o desarmamento e a não proliferação regionais, incluindo a implementação da resolução de 1995 sobre o Médio Oriente.

Abordará igualmente maneiras de fortalecer o processo de revisão para melhorar a eficácia, eficiência, transparência, responsabilidade, coordenação e continuidade.

Ao fazê-lo, a Conferência levará em consideração o ambiente de segurança internacional em constante evolução e os recentes desenvolvimentos que afetam o Tratado e o regime mais amplo de não proliferação nuclear.

O TNP entrou em vigor em 1970 e foi prolongado indefinidamente em 1995.

O Tratado é considerado a pedra angular do regime global de desarmamento e não proliferação nuclear. Foi concebido para prevenir a proliferação de armas nucleares, promover o desarmamento e fomentar a cooperação nos usos pacíficos da energia nuclear.

Conferências para avaliar o funcionamento do Tratado têm sido realizadas a cada cinco anos desde 1970.

Embora os Estados-membros tenham consistentemente procurado alcançar consenso sobre um documento final, fazê-lo tem-se tornado cada vez mais desafiador nos últimos ciclos.


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