© Lusa 09/04/2026
"Partilho da sua opinião de que existe um grande risco de os russos e os chineses se envolverem mais ainda no Ártico. Creio que o Presidente [Trump] tem razão ao afirmar que devemos defender-nos", declarou Mark Rutte em Washington, ao ser questionado sobre o interesse de Donald Trump em controlar a ilha dinamarquesa.
"O que acordámos em Davos [onde se reuniram em janeiro, no Fórum Económico Mundial] é, em primeiro lugar, que, no que respeita ao Ártico, a NATO deve desempenhar um papel nessa zona", acrescentou.
Donald Trump, que ameaçou repetidamente retirar-se da Aliança Atlântica devido à falta de apoio da organização na guerra com o Irão, indicou que o descontentamento com a NATO "começou com a Gronelândia".
"Lembrem-se da Gronelândia, aquele enorme e mal gerido bocado de gelo", concluiu Trump numa mensagem publicada nas redes sociais depois do encontro com Rutte, na quarta-feira, numa aparente referência à escalada de tensões em janeiro, quando afirmou não excluir o uso da força para tomar a ilha, território autónomo da Dinamarca, o que irritou muitos aliados.
O secretário-geral da NATO transmitiu no final da reunião, que decorreu à porta fechada, que Trump se mostrou "claramente dececionado" com a Aliança, mas que também "foi recetivo" durante o encontro.
Rutte disse que no Fórum Económico de Davos acordou-se que a Aliança Atlântica desempenhe um papel mais ativo naquela área geográfica e foi posta em marcha uma operação para reforçar a segurança na região, em coordenação com o Canadá e os Estados Unidos.
O responsável explicou que, além disso, a Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos mantêm conversações bilaterais e trilaterais centradas em duas questões: as possíveis implicações de uma mudança futura no estatuto constitucional da Gronelândia dentro do reino dinamarquês e formas de impedir que a Rússia e a China acedam à sua economia.
"O que aconteceria se a Gronelândia alterasse futuramente o seu estatuto constitucional dentro do Reino da Dinamarca? Os acordos vigentes continuariam a ser válidos em tal cenário?", interrogou-se Rutte.
"Acho que é uma questão legítima e que pode ser respondida. Acho que tem solução", acrescentou.
Quanto às críticas de Trump sobre a falta de apoio dos Estados-membros da NATO, Mark Rutte afirmou que, "quase sem exceção", estes responderam aos pedidos de apoio dos Estados Unidos na guerra com o Irão, embora reconhecendo que alguns foram "algo lentos" na resposta.
"O que observo hoje, ao olhar para a Europa, é que os aliados estão a prestar um apoio maciço, a facultar bases logísticas e a tomar outras medidas para garantir que as poderosas Forças Armadas dos EUA conseguem impedir que o Irão obtenha uma arma nuclear. Quase sem exceção, os aliados estão a fazer tudo o que os EUA pedem", disse Rutte.
Num debate no Instituto Ronald Reagan, em Washington, o responsável da NATO indicou que "quando chegou o momento de fornecer apoio logístico e de outro tipo de que os EUA necessitavam no Irão, alguns aliados se mostraram um tanto lentos".
No entanto, acrescentou que, "para ser justo", estes também "foram surpreendidos" pela ofensiva lançada pelos EUA e por Israel a 28 de fevereiro contra o Irão, sem consultar os membros do bloco ou as outras nações aliadas.
O responsável da Aliança Atlântica indicou ainda compreender a estratégia de Trump que, "com o objetivo de preservar o fator surpresa nos ataques iniciais, optou por não informar os aliados com antecedência".
Depois de se reunir com Trump durante duas horas na Sala Oval na quarta-feira, Rutte tentou amenizar as tensões, numa altura em que a Casa Branca intensifica as críticas à Aliança e chegou mesmo a ameaçar diretamente retirar-se da organização.
O Presidente norte-americano também criticou duramente os membros do bloco, chamando-lhes "cobardes", por não apoiarem um plano para garantir a passagem segura pelo estratégico estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irão em retaliação à guerra --- um conflito que os países europeus afirmam não ser assunto seu.
Rutte defendeu, no entanto, que "o Reino Unido, em particular, lidera uma coligação de países que estão a alinhar as ferramentas militares, políticas e económicas necessárias para garantir a livre passagem pelo estreito de Ormuz", de cuja reabertura depende a manutenção do atual cessar-fogo de duas semanas acordado entre os EUA e o Irão.
Insistiu também, como já tinha feito após a sua reunião com Trump, que "os aliados reconhecem (...) que se está num período de profunda mudança na Aliança Transatlântica".
Inquirido sobre a possibilidade de os Estados Unidos se retirarem da NATO, como Trump já ameaçou, o secretário-geral da Aliança não respondeu diretamente e, em vez disso, repetiu que o chefe de Estado norte-americano lhe transmitiu estar dececionado, embora saudando a "conversa franca" que ambos mantiveram.
Mark Rutte falou igualmente do aumento do investimento em Defesa dos Estados aliados, concluindo "tratar-se de uma transição de uma codependência malsã para uma Aliança Transatlântica assente numa verdadeira parceria" e apelando para uma "mudança de mentalidade" que, na sua opinião, "já está em curso".
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