domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ucrânia, um país que sangra e descobre os seus podres mas não se rende... Condenada em muitas previsões à derrota desde os momentos iniciais da invasão russa, a Ucrânia resiste há quatro anos a bombardeamentos diários, apagões acumulados, ofensivas terrestres em desvantagem militar, mas também a sucessivos escândalos de corrupção.

Por LUSA 

Apesar da fadiga de uma guerra que custou centenas de milhares de baixas aos dois lados do conflito e das pressões do Kremlin e da Casa Branca para Kyiv abdicar da região leste do Donbass, as sondagens indicam que a maioria dos ucranianos apoia a continuação da luta.

Eis alguns pontos essenciais sobre o impacto da guerra na Ucrânia:

Baixas militares

No início do mês, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky ,indicou que 55 mil militares do país morreram ao longo do conflito, mais 12 mil do que apontara um ano antes, adicionando "um grande número" de desaparecidos.

O registo oficial está bastante abaixo do estimado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), que apontou entre 100 mil e 140 mil soldados mortos até ao fim de 2025.

Na estimativa do CSIS, as baixas totais da Ucrânia, entre mortos, feridos e desaparecidos, situa-se entre 500 mil e 600 mil, cerca de metade das perdas russas, incluindo 325 mil fatais.

Enquanto Zelensky evita a mobilização militar abaixo dos 25 anos, o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, reconheceu em janeiro que dois milhões de ucranianos estão a furtar-se ao recrutamento e 200 mil soldados são dados como potenciais desertores.

Vítimas civis

Nos últimos quatro anos, morreram pelo menos 15.172 civis ucranianos, dos quais 766 eram crianças, e 41.378 foram feridos, segundo dados da ONU.

As vítimas civis em 2025 aumentaram 31% face ao ano anterior e 70% em relação a 2023, refletindo os ataques diários de centenas de drones e mísseis de longo alcance.

Para a organização Action on Armed Violence, que analisou as vagas constantes de bombardeamentos, a subida de mortes civis resulta de "escolhas específicas de alvos em áreas povoadas ou ataques repetidos a infraestruturas urbanas".

Refugiados, deslocados e deportados 

O Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) regista mais de 3,6 milhões de deslocados na Ucrânia, a que se somam cerca de 5,3 milhões de refugiados na Europa e 550 mil no resto do mundo.

Para 2026, o ACNUR estima que 10,8 milhões de ucranianos, mais de um quarto da população estimada, precisarão de proteção e ajuda humanitária, dos quais 3,6 milhões são prioritários.

Noutro tema sensível para Kyiv, quase 20 mil crianças e menores foram separados das famílias nos territórios ocupados e deportados para a Rússia, segundo a organização ucraniana Bring Kids Back, tendo as autoridades de Kyiv registado a devolução de cerca de dois mil.

O rapto de menores levou à emissão em 2023 de mandados de captura do Tribunal Penal Internacional para o Presidente russo, Vladimir Putin, e para a comissária dos Direitos das Crianças russa, Maria Lvova-Belova.

"Terrorismo energético"

No mês de janeiro mais frio numa década, a Ucrânia foi alvejada por 4.442 drones e 135 mísseis, segundo o jornal The Kyiv Independent, que apresenta um gráfico do 'think tank' energético ucraniano Green Deal Ukraina (GDU), dando conta da perda de cerca de dois terços dos mais de 40 gigawatts de capacidade anterior à guerra, o que explica os atuais apagões em série.

Num quadro descrito como "terrorismo energético", o sistema "está à beira do colapso", de acordo com Vladyslav Mikhnych, diretor do Laboratório de Energia e Clima de Kyiv e consultor do GDU, citado pelo jornal, levando a níveis recorde de importações de eletricidade no mês passado.

Apoio ao esforço de guerra

A mais recente sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kyiv, realizada entre 23 e 29 de janeiro, mostrou que 65% dos inquiridos apoiam o esforço de guerra "o tempo que for necessário" e 52% opõem-se à cedência do Donbass em troca de garantias de segurança, contra 40% que a aceitariam.

No início da guerra, 82% recusavam entregar territórios à Rússia, mas as respostas atuais trazem o elemento novo das garantias de segurança, presumivelmente supervisionadas pelos Estados Unidos, que não existia em 2022.

Os dados indicam ainda que apenas 20% acreditam no fim do conflito nas próximas semanas e 90% apoiam ataques em solo russo, dos quais 80% defendem que devem visar outros alvos além dos militares.

Apoio externo 

O Presidente ucraniano confirmou na quarta-feira que o país recebeu cerca de 500 milhões de euros em apoio militar através de compras de armas aos Estados Unidos, no âmbito da Lista Prioritária da Ucrânia (PURL), lançada no verão pela NATO para suprir a interrupção quase total da ajuda direta de Washington.

Mas Zelensky alerta que as forças armadas precisarão de muito mais, acima de 12 mil milhões de euros, para serem eficientes na linha da frente em 2026 e "privar a Rússia do instrumento de pressão que o terror aéreo representa".

Segundo o Instituto Kiel, que monitoriza a ajuda pública a Kyiv, o apoio total em 2025 "manteve-se próximo dos anos anteriores", apesar do afastamento dos Estados Unidos, que eram o maior doador bilateral.

Em compensação, os países europeus aumentaram o auxílio financeiro e humanitário em 59% e o militar em 67%, donde se destaca uma grande subida de compras na indústria ucraniana, cuja quota já atinge os 22% do total.

O instituto alemão observa que a ajuda financeira e humanitária é agora dominada (89%) por entidades da UE, que em dezembro aprovou um empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia nos próximos dois anos, em alternativa à utilização de ativos congelados russos, antes da preparação do 20.º pacote de sanções a Moscovo.

Escândalos e corrupção 

A recente detenção do ex-ministro German Galushchenko, quando tentava fugir do país, é o episódio mais recente de uma série de escândalos desde a invasão russa.

O caso centra-se num sistema de subornos e branqueamento de capitais avaliado em cerca de 86 milhões de euros em contratos da energética estatal Energoatom, atingindo figuras próximas de Zelensky, incluindo o empresário Timur Mindich, suspeito de liderar esta rede, e o ex-chefe de gabinete Andriy Yermak, além de dois ministros, Galushchenko, ex-titular da Justiça e da Energia, e Svitlana Grynchuk, que lhe sucedeu nesta pasta.

A corrupção é considerada endémica na Ucrânia como parte da herança soviética e um fator essencial na integração na UE, tendo os recentes casos abalado a confiança nos altos servidores públicos, apesar das investigações judiciais e rápidos afastamentos dos visados

Nos últimos anos, foram divulgados outros escândalos, sobretudo na Defesa, por suspeitas acumuladas em aquisições militares e subornos nos centros de recrutamento, que levaram à saída do ex-ministro Oleksiy Reznikov, quatro vice-ministros, cinco governadores regionais e dois chefes de agências governamentais.

Eleições

Sob pressão da Casa Branca e Moscovo, o Presidente ucraniano tem repetido que aceita realizar eleições, mas condiciona a marcação a um cessar-fogo e às garantias de segurança.

Apesar da lei marcial em vigor, que lhe garante o prolongamento automático do mandato terminado em 2024, Zelensky pediu ao parlamento que avalie reformas para viabilizar uma votação, ainda que acredite que "ninguém na Ucrânia quer eleições durante uma guerra" e que os russos apenas o querem substituir.

Kyiv alega também que uma votação universal é prejudicada pela presença russa nas regiões ocupadas, a que se somam centenas de milhares de militares mobilizados para a frente de combate e ausência de milhões de deslocados e refugiados.

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