domingo, 26 de maio de 2019

Guiné-Bissau: povo avisa que vai nomear governo eleito em quatro dias


Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Uma multidão foi às ruas neste sábado (25/05) na capital de Guiné-Bissau, Bissau. Foi a terceira marcha realizada em menos de 15 dias com o objetivo de exigir que o presidente José Mario Vaz – JOMAV – nomeie imediatamente o novo governo, eleito desde 10 de Março deste ano.

Trabalhando como correspondente especial para uma TV de um país africano, conversei com alguns dos responsáveis pela organização da marcha, populares e atores políticos que entraram nos protestos pela primeira vez.

O Secretário Geral da JAAC – Juventude Africana Amílcar Cabral, Dionísio Pereira, foi enfático ao afirmar que é inadmissível que o “Regime JOMAV desrespeite o seu papel constitucional e esteja há mais de setenta dias a criar obstáculos à nomeação do novo governo”.

Cartazes com frases de protestos contra a demora de JOMAV para a nomeação do novo governo foram exibidos durante todo o percurso de pouco mais de três quilômetros da Marcha. Segundo cálculos não oficiais, mais de cem mil pessoas participaram dos protestos.

A estudante Joana Augusto Semedo afirmou que ao participar dos protestos estava “apenas a cumprir o seu papel de cidadã”, pois foi às urnas e “quer que os vencedores tomem posse”.

Confesso que fiquei emocionado ao ver pessoas em cadeiras de rodas, muletas e outras limitações que tornariam altamente compreensível a ausência caso não participassem ativamente da “Marcha Nacional”, como são chamados os protestos. No entanto, não havia obstáculo que fosse maior do que o desejo de fazer valer a Constituição e a Soberania Popular. Cada um ao seu modo esteve presente. Todos com o mesmo objetivo de fazer valer a vontade das urnas.

Outro entrevistado para a reportagem que fiz para a TV africana foi com o Presidente da Comissão Organizadora da Marcha, Ussumani Camará. Para este promissor quadro da política guineense, “a presença na Marcha de representantes dos partidos que formaram a maioria parlamentar reforça a importância desse grito por democracia do povo da Guiné-Bissau”.

O Presidente do PAIGC (partido vencedor das eleições, mas sem maioria absoluta), Domingos Simões Pereira considerou “a presença de uma multidão nas ruas como uma prova inequívoca de que o povo está decidido a fazer valer a sua vontade nas urnas”.

Opinião convergente com a do Líder do APU-PDGB, Nuno Nabiam, que no seu discurso no palanque, após a conclusão da Marcha, abriu uma contagem regressiva de quatro dias para que o Presidente JOMAV nomeie o novo governo imediatamente.

Todos os líderes dos partidos da maioria parlamentar que discursaram disseram que esta foi a última marcha neste formato. A promessa anunciada em palanque é de que o palácio presidencial seja invadido pelo povo em até quatro dias caso o presidente JOMAV não nomeie o próximo governo.

A situação pode ganhar contornos inimagináveis na Guiné-Bissau e a responsabilidade, ou falta dela, será inteiramente do atual presidente e, em grande parte, da omissão da CEDEAO – Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, totalmente distante diante da crise.

A imprensa internacional, governos e outros organismos já estão a fazer o alerta sobre os riscos de uma tragédia na Guiné-Bissau e são enfáticos ao apresentarem a formação do novo governo e a marcação das novas eleições presidenciais como únicos caminhos para a estabilidade política neste país africano.

duploexpresso

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