Por sicnoticias.pt
Entram devagar. À porta chegam com um sorriso tímido, enquanto os mais experientes já ocupam a sala. Dizem o nome da inscrição, tiram os sapatos e ficam de meias. Ouve-se alguém a perguntar se vão fazer posições de yoga difíceis, mas a resposta tranquiliza os mais apreensivos. Aqui não há posturas complicadas, apenas gargalhadas que, curiosamente, já se ouviam antes mesmo da ordem do professor.
É assim que começa mais uma sessão do Clube do Riso de Oeiras, onde rir não depende do humor, nem de piadas. Ri-se porque sim, como exercício, em grupo e, sobretudo, ri-se sem medo de parecer ridículo, mesmo que custe no início.
Um riso forçado que passa a genuíno
Antes de começar a sessão, há regras simples, explicadas pelo professor Márcio Fidalgo, fundador do Clube do Riso de Oeiras. Chama a atenção para problemas de saúde que possam existir, como hérnias, dores no peito ou cirurgias recentes e avisa: quem não conseguir correr pode andar e quem apresentar alguma limitação pode optar por rir de forma mais moderada.
Na sala estão 13 participantes e o professor. Um jovem estrangeiro, um grupo de amigos, uma família, mais alguns praticantes habituais e outros estreantes absolutos. Há também uma grávida de quatro meses, a quem Márcio deu indicações e pediu cautela. Nos primeiros três meses de gestação, não é aconselhada a prática yoga do riso, por causa do esforço abdominal. Agora, pode participar, de forma controlada, sem fazer muitos esforços. Às amigas revela que o bebé é uma menina. "O mundo precisa de mulheres", ouve-se na sala. Fica o sorriso cúmplice de todos: foram os primeiros a saber.
A música começa a tocar e as caras mudam à medida que o corpo aquece. O aquecimento faz-se com palmas e o clássico "ho ho ha ha". O corpo entra no ritmo da música, mexem-se os pés, ancas, tronco, braços, cabeça e, em poucos segundos, todos estão a dançar.
Ao longo da sessão, há ainda exercícios que envolvem o toque, começando pelos dedos, passando para "high fives" e, por fim, abraços. Aos participantes é dito, várias vezes, que nada é imposto, ninguém é obrigado a tocar nos colegas e o objetivo é que se respeitem os limites de cada participante.
Depois do aquecimento físico dá-se espaço ao mental. Andar, parar, saltar, bater palmas. O desafio é ouvir a palavra e fazer o contrário. Ou seja, quando Márcio diz 'andar', os participantes devem 'parar', quando diz 'bater palmas' a indicação é que 'saltem'. Uma verdadeira provocação para o cérebro, que fica 100% compenetrado naquele jogo. Se no início o riso era forçado, agora é, inevitavelmente, verdadeiro.
"Pode começar forçado, fingido", explica Marta, de 48 anos, que pratica yoga do riso desde a pandemia. Vem de Torres Vedras até Oeiras para participar nas sessões. A camisola que usa, estampada com a frase "Clube do Riso do Oeste", dá a entender que, na arte de rir, já é veterana.
"O riso é mais contagioso do que uma gripe. Um puxa o outro. Entramos naquela onda e é muito bom. Dá uma paz, uma tranquilidade. É um bálsamo para a alma", acrescenta com um sorriso.
Tainá veio pela primeira vez. Já tinha ouvido falar do yoga do riso, mas foi o convite de um amigo que a levou a experimentar. "Sentia que precisava de trazer mais leveza à minha vida", confessa.
A primeira impressão é de estranheza, admite Tainá, explicando que as pessoas não estão habituadas a rir-se assim, sem motivo. "É um pouco constrangedor", afirma.
"Depois percebi que era uma dinâmica, que era para soltar, sair dessa seriedade, desse controlo", continua.
O corpo não tardou a responder. No final da sessão, a sensação era de "um formigueiro, muita energia e leveza".
O que é o yoga do riso?
O yoga do riso foi desenvolvido por Madan Kataria, um médico indiano, e combina exercícios de riso com técnicas simples de respiração do yoga. Embora a evidência científica distinga os conceitos de "riso simulado" e "riso espontâneo", aqui defende-se que o corpo não os diferencia e que reage da mesma forma a ambos.
"Quando estamos a rir, estamos a criar neurotransmissores como a dopamina, as endorfinas e a serotonina", explica Márcio. "Essas substâncias entram na corrente sanguínea e criam sensações de bem-estar. Ajudam também a atenuar a dor".
No caso do Márcio, a história começou a ser escrita na primeira pessoa. "Passei por um período de depressão, ataques de pânico e ansiedade generalizada. Era muito tímido. O Yoga do Riso trouxe tanta competência à minha vida que senti vontade de divulgar e partilhar esta prática com outras pessoas", continua.
O Clube do Riso de Oeiras foi criado em 2017 e oferece sessões regulares e gratuitas, em Queijas. Também leva o riso a escolas, lares, empresas, associações e hospitais. É um projeto comunitário, sem fins lucrativos, onde o riso é visto como uma ferramenta de saúde.
No princípio o riso, no final o yoga
Nos minutos finais, há um momento de relaxamento, com uma meditação guiada por Márcio, seguida de um período de silêncio, não total, porque toca, baixinho, a música "Ciclos", de Madayati e Mayah. Os participantes são chamados a virarem-se para a direita e a colocar a mão no braço de quem está à frente. As três amigas abraçam-se, num gesto que comove.
Finalizada a introspeção, é hora de voltar a mexer o corpo, numa espécie de dança da despedida entre aqueles que ali se cruzaram pela primeira vez. Agora ao som de "Sunny Sunny", de Neha Kakkar, uma canção mais mexida. O riso já não precisa de ser chamado. Está lá.
"Saio de coração cheio, mais otimista. Mesmo com problemas, conseguimos olha-los de outra forma. É uma higiene mental", resume Marta.
Antes de fazer o caminho de regresso a casa, Marta deixa um convite de quem já sabe ao que vem.
"Permitam-se, experimentem. Não perdem nada. O riso e o choro são ferramentas incríveis com que todos vimos equipados de fábrica. E quase desaprendemos a rir. É uma pena porque o riso é maravilhoso", apela.
Segundo o médico e investigador espanhol, Mora-Ripoll, conhecido por estudar abordagens inovadoras para a saúde mental, o riso tem diversos efeitos no corpo: diminui os níveis de cortisol e aumenta as betaendorfinas; aumenta a frequência cardíaca, a frequência respiratória e o consumo de oxigénio (pode ajudar a reduzir o risco de doenças cardiovasculares); diminui a pressão arterial; relaxa os músculos; aumenta os limites da dor e desconforto; e gasta calorias.
Rir pode não resolver tudo, mas, durante uma hora, no Clube do Riso, o mundo parece ter ficado mais leve.
.webp)
.webp)
.webp)
Sem comentários:
Enviar um comentário