Por SIC Notícias Quando falamos de sexualidade, é importante começar por alargar o olhar. Sexualidade não é apenas o ato sexual. É a forma como habitamos o corpo, como sentimos prazer, como nos vinculamos, como nos permitimos ser tocados, física e emocionalmente. Ela começa no nascimento e acompanha-nos até ao fim da vida. O que muda não é a sua existência, mas a forma como se expressa e ganha significado em cada etapa do desenvolvimento humano.
Infância – O Corpo como Primeira Casa
Na infância, a sexualidade vive-se na pele e no afeto, nunca na dimensão erótica.
Vive-se no colo que embala, no abraço que acalma, na mão que segura quando o mundo ainda é grande demais. A criança descobre o corpo com curiosidade inocente, toca, observa, pergunta, explora sem qualquer intenção sexualizada.
O prazer, aqui, é o prazer da segurança e do conforto.
É através do toque cuidador que a criança aprende que o corpo é um lugar seguro para habitar. Quando os adultos respondem com naturalidade às perguntas corporais e não reprimem a curiosidade, estão a construir a base da saúde sexual futura: uma relação tranquila com o próprio corpo e com os limites do outro.
Adolescência – O Despertar do Desejo
A adolescência é uma das fases mais intensas e desorganizadoras do ponto de vista sexual.
O corpo transforma-se rapidamente, as hormonas despertam o desejo, e surgem sensações novas que o jovem ainda não sabe nomear nem integrar emocionalmente.
Há excitação, mas também vergonha. Há curiosidade, mas também medo de julgamento.
As primeiras paixões aparecem com intensidade absoluta. O outro torna-se centro emocional, espelho identitário, fonte de validação.
Hoje, esta fase é atravessada por influências externas muito poderosas, redes sociais, pornografia, padrões irreais de corpo e desempenho, que podem distorcer expectativas sobre o que é intimidade e prazer.
Por isso, falar de sexualidade nesta fase é falar de consentimento, respeito, autoestima e responsabilidade emocional.
Adulto Jovem – A Sexualidade como Encontro
Na vida adulta jovem, a sexualidade deixa de ser apenas descoberta individual e passa a ser encontro entre dois corpos e duas histórias.
Surge o desejo de ser visto, escolhido, amado. O corpo torna-se linguagem de expressão emocional e vinculação.
Mas é também uma fase marcada por inseguranças silenciosas: ansiedade de desempenho, medo de não corresponder, dificuldade em comunicar desejos ou limites.
Muitos acreditam que o sexo deve ser naturalmente perfeito, quando na realidade ele constrói-se com confiança, comunicação e tempo.
A verdadeira intimidade começa quando deixamos de tentar impressionar e passamos a permitir-nos ser genuínos.
Relações Duradouras e Parentalidade – O Desejo na Vida Real
Com o passar dos anos, a sexualidade é chamada a transformar-se.
O amor mantém-se, mas a vida ocupa espaço: trabalho, filhos, responsabilidades, cansaço físico e mental.
A espontaneidade erótica diminui, não por falta de desejo, mas por falta de espaço interno para o sentir.
Muitas mulheres descrevem que não é ausência de amor, mas excesso de carga mental. A mente sobrecarregada tem dificuldade em aceder ao erotismo.
Aqui, o desejo deixa de ser automático e passa a ser intencional. Precisa de tempo protegido, de reconexão emocional, de presença.
Não desaparece, reorganiza-se.
Meia-idade – A Metamorfose do Corpo e do Desejo
Há uma fase da vida em que o corpo volta a pedir escuta profunda.
Depois de décadas a viver em modo de aceleração, ele começa a falar mais devagar, mas também com mais verdade.
Menopausa – A Travessia Feminina
A menopausa não é apenas um acontecimento biológico. É uma travessia identitária.
Para muitas mulheres, marca o fim de um ciclo associado à fertilidade, podendo ser vivida como perda de juventude ou de desejabilidade.
Existem alterações físicas reais: secura vaginal, alterações do sono, oscilações de humor, flutuações do desejo sexual.
Mas existe também uma dimensão libertadora.
Muitas mulheres descrevem que, pela primeira vez, vivem o corpo para si, não para corresponder ao olhar do outro. A sexualidade torna-se mais autêntica, menos performativa, mais centrada no prazer sentido.
É uma reconciliação com o corpo vivido, um corpo com história, memória e identidade.
Andropausa – A Travessia Masculina
No homem, a transição é mais gradual, mas igualmente significativa.
A diminuição da testosterona traz alterações na resposta sexual, que se torna mais lenta, podendo surgir alterações eréteis ou necessidade de maior estimulação.
Muitos homens vivem estas mudanças com ansiedade, porque foram educados a associar masculinidade a desempenho.
Quando o corpo pede outro ritmo, pode surgir evitamento da intimidade por medo de falhar.
Mas esta fase pode abrir espaço a uma sexualidade mais relacional, menos centrada na performance e mais no toque, na presença e na ligação emocional.
Uma sexualidade menos ansiosa e muitas vezes mais profunda.
Envelhecimento / Idade Avançada – A Intimidade que Permanece
Na idade avançada, a sexualidade não desaparece, transforma-se.
Torna-se menos genital e mais afetiva. O toque, o carinho, o dormir de mãos dadas ganham protagonismo.
Há algo profundamente comovente na intimidade nesta fase: ela é menos sobre provar e mais sobre pertencer.
Mesmo quando o corpo abranda, a necessidade de proximidade emocional mantém-se viva.
A sexualidade continua a ser linguagem de vínculo até ao fim da vida.
Artigo da autoria da psicóloga clínica, Isabel Henriques