© Shutterstock Por noticiasaominuto.com 19/06/2026 Durante muitos anos, congelar óvulos estava associado a mulheres com alguma doença e que viam aqui uma solução de aumentar as hipóteses de virem a ser mães. Hoje em dia, o social egg freezing é visto como uma tendência. Pode não existir uma razão médica para a criopreservação de óvulos e acaba por ser uma escolha para adiar a constituição de uma família. Falámos com um médico para perceber melhor os motivos, quem deve fazê-lo e em que condições. Recolhemos ainda os testemunhos de duas mulheres que optaram por fazer a criopreservação de óvulos.
“O social egg freezing é o termo usado para a criopreservação de óvulos sem ser por motivo médico ou doença, servindo para guardar óvulos para uso no futuro, não havendo no imediato um plano de ter filhos por qualquer motivo que não médico. Em termos técnicos não difere do outro tipo de criopreservação”, começa por revelar ao Lifestyle ao Minuto Miguel Lopo Tuna, médico especialista em ginecologia e obstetrícia, e sub-especialista em medicina de reprodução da AVA Clinic.
Social egg freezing: Adiar a hipótese de ser mãe
Desta forma, muitas mulheres acabam assim por querer adiar a hipótese de vir a constituir família e de serem mães. O avançar da idade é uma das razões. “Saber que a idade é fundamental em termos de probabilidade de gravidez, quer natural, quer com tratamentos, e ver na vitrificação uma maneira de ‘parar’ a idade dos óvulos e assim manter no futuro a mesma probabilidade de gravidez que teria na data da criopreservação.”
O especialista afirma que esta tendência do social egg freezing tem aumentado nos últimos cinco anos. Acaba também por ser algo que os especialistas aconselham a algumas mulheres. “Esta criopreservação é recomendada a uma mulher que tenha mais de 35 anos e não pretenda ter filhos nos próximos dois anos, mas também a uma mulher que tenha uma reserva ovárica baixa ou que, apesar de saudável, tenha história familiar de insuficiência ovárica e esteja ainda a entrar na menopausa precoce.”
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| Miguel Lopo Tuna é médico especialista em ginecologia e obstetrícia © AVA Clinic |
Realizar a criopreservação acaba por ter algumas vantagens, como revela Miguel Lopo Tuna. “Preserva óvulos, ficando a saber a qualidade dos mesmos e ficando com uma hipótese de num eventual futuro tratamento, numa idade mais avançada, ter exatamente a mesma hipótese de sucesso, em termos de qualidade ovocitária, que no momento da sua preservação, uma vez que o processo e o tempo de congelamento não alteram a qualidade dos óvulos. Por outro lado, este processo não afeta a reserva ovárica da mulher.”
Apesar de ser um processo simples e com vantagens no futuro, é sempre importante que a tomada de decisão seja o mais consciente e informada possível.
“É um procedimento acerca do qual os médicos devem informar as pacientes, esclarecendo os riscos e benefícios para que possa haver uma decisão informada. A preservação de óvulos, tal como qualquer tratamento de Procriação Medicamente Assistida, nunca é realizada sem a leitura e assinatura de um consentimento informado, elaborado por uma entidade externa às clínicas.”
Criopreservação: Há uma idade limite?
Criopreservação de óvulos sem um motivo médico é algo mais procurado por mulheres mais velhas. Contudo, é importante perceber que pode existir uma idade em que as taxas de sucesso mais tarde, numa futura gravidez, poderão ser mais complicadas.
“A fertilidade máxima nunca é superior a 30% por mês e, por isso, está em declínio a partir dos 30 anos, não havendo uma idade mínima nem máxima para a preservação, já que a idade máxima é limitada pela evolução da reserva ovárica da mulher.” Contudo, o médico revela que é algo que pode ser mais difícil a partir dos 43 anos.
“A recomendação é variável mediante a realidade clínica de cada mulher, mas a partir dos 43 anos, uma mulher teria de preservar mais de 20 óvulos, o que implicaria, provavelmente, várias colheitas. Todavia, uma doente devidamente informada de que a taxa de gravidez, com esses óvulos colhidos, nessa idade (sem estudo genético), é inferior a 10%, pode argumentar que será sempre melhor recorrer a criopreservação do que, entretanto, entrar na menopausa já só podendo recorrer a doação de óvulos.”
Falsa sensação de segurança?
Além da idade, e do facto de ser saudável, existem outros motivos que devem ser tidos em conta neste processo. “Qualquer mulher que decida preservar óvulos recebe um consentimento informado em que se abordam os riscos do procedimento, é submetida a uma história e exames clínicos rigorosos. São também pedidos exames complementares em que se avalia a reserva ovárica e se despistam doenças relevantes.”
O social egg freezing poderá ser visto por muitas mulheres como apenas um adiar da decisão, mas pode também ser uma falsa sensação de segurança e de que tudo irá correr como gostaria no futuro.
“As pacientes têm de estar cientes que este procedimento não garante uma gravidez e que implicará uma fertilização in vitro após os óvulos serem descongelados”, revela o médico Miguel Lopo Tuna. Aliás, é deste ponto que chegam algumas das questões que acredita que muitas mulheres não fazem, mas deveriam, quando avançam para a criopreservação de óvulos.
“Deviam sempre ser feitas sempre duas questões: Qual a probabilidade real de vir a ter um bebé com os óvulos congelados e quais as taxas de sucesso na clínica que procurou.” Ainda assim, nos últimos anos, os estudos e técnicas têm vindo a aumentar, o que se pode traduzir numa melhoria da taxa de sucesso.
“O processo de vitrificação garante uma quase totalidade da sobrevivência dos óvulos nas mulheres antes dos 40 anos e uma taxa de fertilização semelhante aos óvulos “frescos”, mas a técnica poderá ainda melhorar.”
Os testemunhos
"Mónica", 35 anos (nome fictício)
Aos 34 anos, Mónica recorreu à IVI Lisboa para fazer a criopreservação de óvulos. A experiência da madrinha fez com que considerasse este processo. O não saber bem o que o futuro lhe reserva e o desejar ser mãe mas não para já levou-a a iniciar a preservação, isto sem ter nenhuma doença ou problema que, à partida, a impediriam de vir a ter filhos.
Porque decidiu congelar os óvulos?
Decidi congelar os óvulos porque recebi esse “empurrão” de quem mais aprendeu à custa da própria experiência: a minha madrinha. Ela nunca tinha pensado muito no impacto do tempo na fertilidade e, quando decidiu ser mãe, acabou por precisar de recorrer a um tratamento com óvulos doados. Foi um presente dela.
Já tinha conhecimento da tendência do social egg freezing?
Muito pouco. Sabia que existia, mas via sempre como algo distante, quase exclusivo de celebridades ou de mulheres com carreiras muito específicas. Nunca tinha parado verdadeiramente para pensar se isso fazia sentido para mim.
Vê como um plano B ou uma segurança emocional?
Vejo claramente como uma segurança emocional. Não é um plano fechado, nem uma decisão definitiva sobre a maternidade. É saber que estou a cuidar de mim para se for preciso ter mais escolhas no futuro.
Foi fácil tomar esta decisão? O que mais pesou?
Não foi uma decisão fácil, mas foi muito consciente. O que mais pesou foi mesmo a história da minha madrinha. Perceber que ninguém acha que “vai acontecer comigo”, até acontecer, mesmo ao nosso lado. Também pesou a sensação de tranquilidade que senti ao perceber que existiam hoje ferramentas muito mais avançadas e personalizadas que me ajudaram a tomar a decisão com base em dados concretos.
Durante o processo nunca se arrependeu ou pensou sempre que seria para avançar?
É um processo fácil. Sinceramente nem pensei nisso. Foi um presente e estou simplesmente a congelar óvulos.
Sentiu alguma pressão social?
Curiosamente, pensando bem, senti mais pressão, ainda que muito leve, antes de congelar os óvulos do que depois. A pressão para “já devias pensar em ser mãe”. Congelar ajudou-me a desligar desse ruído externo.
Houve algo que a surpreendeu de forma positiva ou negativa?
Surpreendeu-me que a tecnologia permita ter informação tão fascinante quanto a previsão de um simples óvulo, um dia poder ser um bebé.
Mudou a sua forma de olhar para a maternidade?
Acho que não. Continua a ser um desejo, mas agora é um desejo com espaço para respirar.
Sentiu ansiedade, alívio ou dúvida durante o processo?
Não senti nada disso. Como disse, é mesmo um processo simples.
O congelamento trouxe-lhe mais tranquilidade em relação ao futuro?
Acho que sim. Não me dá garantias, mas dá-me margem. Ter congelado os óvulos não me garante que no futuro consiga ser mãe, mas é uma possibilidade de se precisar de fazer tratamento de fertilidade tentar com os meus óvulos e não com doados como foi o caso da madrinha.
Recomendaria a outras mulheres? Em que situações?
Recomendaria sobretudo a mulheres que, como eu, ainda não sabem quando querem ser mães ou que sentem que a vida ainda não está alinhada para isso. E, claro, quem tenha histórico familiar de dificuldades para engravidar, não deve ignorar isso.
Como foi todo o processo de informação sobre o tema? Foi bem acompanhada em todo o processo?
Na IVI senti que o foco era informar-me e saber cada etapa do processo. Gosto de sentido prático e gostei de me terem explicado que não seria nunca uma garantia de que iria engravidar no futuro, mas também me fascinou a parte mais tecnológica do tratamento. O programa IVI Prediction ajudou-me a perceber o meu potencial reprodutivo. No fundo, é um software que utiliza a inteligência artificial para avaliar a quantidade e a qualidade dos óvulos que se traduz num relatório com a probabilidade de ter um bebé com os óvulos extraídos. Depois, um dia, existem muitos fatores para isso conseguir mesmo acontecer. Isso é importante que as pessoas percebam. Acho que ainda se fala pouco sobre estas coisas.
Raquel Comprido, 36 anos
Raquel viu a sua vida a mudar depois de ter recebido o diagnóstico de endometriose e de ter descoberto um quisto de grandes dimensões no ovário esquerdo, motivo pelo qual foi aconselhada a fazer criopreservação de óvulos.
Apesar de ter tido uma razão médica para recorrer à criopreservação, a história de Raquel assemelha-se à de "Mónica" no que diz respeito à pressão social exercida nas mulheres relativamente à maternidade e à sensação de corrida contra o tempo.
Sempre foi um sonho da Raquel ser mãe ou nem pensava nisto?
Na verdade, ainda não sei se tenho esse sonho. Quando era pequenina dizia que queria ter duas meninas, mas queria ser mãe jovem, porque tenho muito medo da morte e queria viver o máximo de tempo com elas.
Queria que fossem duas gémeas, enfim, aquelas coisas que idealizamos. Depois, à medida que foi avançando a idade, sempre achei que não tinha muito jeito para crianças, não tinha muita paciência e também tenho uma vida um bocado mais nómada ou digital.
Com o nascimento da minha sobrinha, que tem dois anos e meio, comecei a pensar nisso. Percebi que queria sim ser mãe, ter uma família, mas sempre numa relação saudável.
Então não teve aquela altura em que sentiu o relógio biológico assim a despertar?
Sinto muitas vezes que estou sem tempo, porque eu tenho 36 [anos]. Não tenho uma relação saudável, portanto acabei por abdicar desse sonho, uma vez que ainda não tenho a estrutura de que preciso para isso. Fui um bocadinho "obrigada" a fazer o procedimento por questões de saúde.
Como é que tomou a decisão de congelar os óvulos?
Já deixei de tomar a pílula há muitos anos, sempre fui muito regular e nunca tive muitas dores. Também faço imenso desporto e foi sempre tudo ok. O ano passado comecei a ter imensas dores ao ponto de, inclusive, não conseguir andar, o que para mim é muito estranho.
Entretanto, pedi ao médico para me passar análises de rotina. Fiz muitos exames, muitas coisas e descobriram que eu tinha um quisto gigante no ovário esquerdo. Demorou bastante tempo até conseguir finalmente ter um diagnóstico de endometriose. Depois, fui a uma consulta com uma médica especializada, que me disse que tinha de congelar os óvulos.
Como é que se sentiu quando recebeu essa notícia de que havia a possibilidade de nunca mais conseguir ter filhos por causa do quisto?
Sou uma pessoa muito inquieta e ansiosa por natureza, por isso até achei que ia reagir pior. Na ecografia estava mesmo super assustada com o tamanho do meu quisto e o médico disse-me aquelas coisas que não se dizem a ninguém: "provavelmente nunca vais ser mãe". Desatei a chorar.
Entretanto conseguiu encontrar uma clínica de fertilidade. Como é que tem sido este processo?
O processo em si para mim foi rápido e foi tranquilo, mas exige logística à mesma. Temos de abdicar de muitas coisas, dar injeções diárias - eu, que sempre tive medo de agulhas. Temos de fazer acompanhamento, com ecografias, e quando o médico diz "está tudo pronto", temos de ir.
Quando acordei, porque tem anestesia, o médico disse-me que só tinha quatro [óvulos]. Pensei: "Mas isso é bom ou é mau?" Estava lá uma senhora que tinha 12 e eu tinha quatro.
Mesmo nessas circunstâncias surge a comparação.
Sim. Este médico foi super cuidadoso e disse-me: "Não, Raquel, está dentro do esperado, porque é uma mulher 36 anos, com endometriose muito avançada e um quisto gigantesco".
Quando se faz o congelamento de óvulos é por quanto tempo? Quais foram os avisos ou as recomendações que fizeram à Raquel?
Podemos escolher se queremos dois anos ou cinco anos. No meu caso, fiz dois anos e depois posso estender. Podemos pensar "mas dois anos passam num instante." Passam e posso até nem precisar. Posso conseguir engravidar naturalmente, até porque existe a outra parte que é a qualidade do esperma.
Uma vez que não tem parceiro, nunca pensou em recorrer a um banco de esperma para ser mãe?
Não. Nunca sabemos o que a vida nos reserva e se a certa altura vou decidir ter um filho sozinha, mas não me passou pela cabeça. Inclusive, uma das questões que colocam é se estamos de acordo/se queremos doar os óvulos, mas não me sentia confortável. Até já pensei na adoção, mas preferia o convencional.
"Não vais casar?" e "quando é que vais ter filhos?" devem ter sido questões que ouviu. Quer em relação a isto, quer em relação ao congelamento de óvulos, acredita que poderá estar a haver uma mudança de mentalidades ou ainda temos um longo caminho pela frente?
Ainda temos, mas acredito que está a mudar. Há cada vez mais pessoas com a minha idade que estão a pensar em congelar óvulos. Chega a ser um pouco assustador, porque as que eu conheci não têm uma relação. Não é porque não querem, não é uma escolha, é mesmo porque está super difícil [encontrar parceiro]. As mulheres ainda estão assim um bocadinho perdidas nesta questão.
Qual era o conselho que gostava que lhe tivessem dado?
Penso que devíamos ser informadas para ir testar a nossa reserva ovárica, perceber como é que isso funciona. Acredito que a maior parte das pessoas nem sequer sabe como é que está a sua fertilidade.
Mas mesmo que uma mulher saudável queira congelar os óvulos existe ainda outra questão: os custos associados ao processo.
Exato, não é comparticipado. Para quem tem endometriose é, mas também não me serviu. Cheguei com a carta da minha médica à Maternidade Alfredo da Costa e disseram que "estava demorado", teria de esperar dois anos. Eu não tenho dois anos. Esta clínica onde eu estou a fazer tem planos de pagamento, o que já ajuda. Mas sim, também é preciso prepararmo-nos para essa parte.
Depois há a questão mental. O meu tratamento durou uma semana e dois dias, mas é preciso ir à clínica dia sim, dia não. E temos de conseguir fazer o procedimento como o médico nos indica.
Em algum momento este foi um tema desconfortável para si?
Não. É engraçado que a minha mãe ao início disse: "não vais partilhar isto, pois não? É a tua vida pessoal". E eu disse: "vou sim, mãe, não tem mal". Percebi que mesmo não sendo especialista nisto poderia ajudar alguém ao contar a minha experiência. Claro que o processo é diferente para toda gente, pode ser fácil para mim e difícil para outra mulher, mas sinto-me tranquila ao falar sobre isto.
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